Uma babá quase imperfeita

Eu tinha 14 anos quando vó Belinha morreu. Jô, a empregada que morava em casa com seu filhinho Samuel, era muito apegada a ela e se deprimiu, teve que voltar pra sua cidade porque não aguentava estar ali. Assim, vivi só com Fatoca por seis meses, até que um dia ela me chegou com esse papo:

– Arrumei uma pessoa.

– Pra quê? Tá namorando? Uhuuuu! Razô, mamis!

– Pra cuidar de você, da casa.

– De mim? (eu me sentia bem adulto, só me faltava essa babá agora)

– É, mas ela não quer ser empregada nem receber salário: o acordo é que ela cuida de tudo, mora com a gente, mas vai continuar estudando e vai buscar um emprego fora.

– Bom, mãe, a dona da casa é a senhora, né? Vou dizer o quê?

– É do interior, tem princípios. Foi freira por 10 anos, uma moça muito boa.

– Foi o quê?

– Freira, meu filho. Mas já saiu.

– Freira? Freira, freira? De igreja, hábito, terço na mão?

– Noviça. Josefina. Não é mais. Amanhã de manhã ela chega. Certeza de que vocês vão se dar bem.

Assim foi que Ana Célia entrou na minha vida, com seus olhos redondos arregalados, seu silêncio desconfiado, as sandálias franciscanas – josefinas, quer dizer –, o cabelo pixaim. Chegou apreensiva, mal abria a boca, e encontrou um menino curioso, mimado, cheio de manhas e sonhos.

De lá pra cá, muita coisa mudou: os seus cabelos, quanta diferença… de normalista ela passou a telefonista, depois passou em concurso público e hoje trabalha debaixo do sol quente e tem voz muito ativa na greve da categoria; mamãe mudou de plano astral; eu mudei de cidade, de país, e hoje acumulo cabelos brancos, rugas na cara e uns sonhos realizados.

Ao longo dessas mais de duas décadas, construímos uma relação especialíssima, de vasta cumplicidade, apoio e amor. Quando eu decidi que não teria uma família convencional, ela me acolheu sem julgar, ainda que intimamente lhe faltasse entendimento. Quando mamãe se enfermou, ela lhe cuidou como se filha fosse – e filha era, e irmã minha é. Quando a saudade apertou, venceu o pânico e se meteu num avião até São Paulo para estar comigo. Depois veio mais longe, até Lima, quem diria. E vai até onde for, eu sei, porque descobriu que não tem limites, que dá conta de qualquer desafio.

Ela é braba, grossa, não aguenta injustiça nem desaforo. Tem a língua mais rápida do oeste, do leste, de qualquer ponto cardeal. Desconhece a falsidade – o que lhe rende desafetos de pronto reduzidos à insignificância que merecem. Mas quando ama, ah!, ela ama de verdade. Disso eu dou fé. Sou seu menino, como ela me apresenta nos seus círculos sociais. O filho que ela não pariu. O amigo de todas as horas. O porto seguro. Como ela, pra mim.

Hoje Ana Célia fez aniversário. Acompanhei o trotar dos ponteiros para interromper seu sono e ser o primeiro a cumprimentá-la. Queria estar lá para dar um abraço acochado, jantar numa japa, compartilhar nossos segredos. Daqui, rezei pela sua saúde, pedi proteção, mandei boas vibrações. Nos falamos de novo no começo da noite. Confidenciamos, rimos, irmãos. Ela segue morando na minha casa, cuidando de tudo. Trabalha e quer fazer faculdade, no que tem meu total incentivo. Ainda que apartados por um continente, estamos juntos. E estaremos sempre.

Tava certa, Fatoca. A gente se deu muito bem.

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Detox

Aqui em casa começamos uma tal dieta detox, meio inventada da nossa cabeça, à base de extratos de vegetais, folhas e frutas. A ideia era ficar uma semana tomando só isso nas três refeições, mas eu sou fraco, confesso, já furei duas vezes. O Jorge, impávido colosso, segue na peleja.

Vamos mesclando o que tem em casa, e daí saem receitas bem interessantes, pra dizer o mínimo. Até agora, nenhuma intragável e várias BEM gostosas. O segredo tem sido aprender a melhor forma de extração (centrifugar, espremer, liquidificar etc.) de cada ingrediente, as proporções e, claro, como se combinam os sabores.

Ontem à noite, por exemplo, misturei caihua, pepino, manga e limão. Hoje de manhã, aipo, abacaxi, maçã e gengibre. Pro almoço vai ter um batido de cenoura, laranja e espinafre. Não temos acompanhamento profissional nem ando comparando o aporte nutricional, a biodisponibilidade ou as propriedades mágicas dos sucos. Preferimos orgânicos, higienizamos adequadamente e tomamos o suficiente para saciar a fome imediata. Nas primeiras 48 horas rolaram uma moleza e uma dorzinha de cabeça, e o mau humor era evidente; hoje, depois de cinco dias, a sensação de saciedade é mais fácil, o ânimo e a vitalidade aumentaram, o peso baixou, estamos contentes.

Claro que bate vontade de variar o cardápio, e nesse final de semana vamos introduzir alimentos sólidos, controlando gordura, lácteos e carboidratos processados. Mas é um processo de reeducação alimentar, daqueles que a gente merece (e precisa) começar em algum momento da vida. Agora só preciso descobrir como vou equilibrar o chocolate, o bacon e o vinho nesse novo modus vivendi…

Macbook, macdog, mé que pode?

Luna morre de ciúme do meu computador. É eu abrir o bicho e ela começa a saltar feito louca, azunhar minhas pernas, morder e arrancar o cabo de força, latir – e olha que ela não late quase nunca, às vezes até parece muda… Daí sobe no sofá e deita no meu colo com a cabeça sobre o teclado, empurrando o notebook e me olhando com aquela cara pidona do Gato de Botas do Shrek.

No começo eu cedia ao seu charme de bebê canino, mas agora entendo que minha filha se converteu em uma manipuladora ardilosa, que de todas as maneiras tenta chamar minha atenção para não apenas ganhar um afago, ou que eu lance um brinquedo à distância e ela possa desembestar a mil pela casa em sua busca. Isso não lhe basta: Luna quer mesmo é minha devoção. Quer que eu esteja sempre a seu serviço, disponível a qualquer hora. Que atenda ao mínimo grunhido, que corra 50 km ao seu lado, que não me importe com a fixação oral que lhe faz morder tudo e todos freneticamente, que a carregue no colo e lhe abrace e aperte e lhe mate de amor.

Ok, confesso que essa última parte é legal. Sou meio Felícia (Elmyra, Elvira) mesmo, e adooooooro apapachar – em espanhol significa algo como dar carinho, dengar – a chiquita. Mas pô, também sou doente pelos meus gadgets, né? Como faço para a cachorra e o laptop coabitarem em paz?

Luna 1 x 0 computador

Luna 1 x 0 computador

Cadimia, dia 5: pernas.

Hoje foi dia de trabalhar gastrocnêmios, gastrocsímios, soleares, luneares, estreleares, adutores, quadríceps, quadrúpedes, sartórios, sanatórios, glúteos máximos, mínimos e mais ou menos, ou seja, tudo o que tinha e o que não tinha pra baixo da pelve.

Não sei quando volto a caminhar direito, mas acho que tá dando resultado. No final eu olhava no espelho e já me via assim:

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ACORDA, ALICE!

Ontem foi feriado em Lima e, como sempre que há uma pausa assim, intervalando a semana, aproveitei para dormir. Dormi pesado, profundo, de roncar alto e sonhar longe. No adiantado do sono, caí numa toca de coelho e vivi uma das experiências mais doidas da minha vida. Não lembro direito, sou péssimo com essa coisa de sonho, mas vou tentar contar.

Recebíamos um convite para visitar as Lomas de Lachay, um oásis que enverdece por 4 meses no ano em meio a um deserto graças a uma conjunção climática que proporciona nevoeiros bem densos de julho a outubro. Com a umidade, as plantas florescem, as árvores secas revivem, e uma peculiar fauna local dá as caras. É um ecossistema ímpar, uma espécie de Shangri-La guardado no Peru.

Pegávamos um ônibus de excursão com mais três amigos, todos animados e curiosos. Um deles tinha levado um bolo de chocolate (creio que li um “eat me” na cobertura), fazendo nossa alegria enquanto a viagem transcorria tranquila, cruzando os areais de Ancón e Huaral, com suas belas e intermináveis dunas. Finalmente saíamos da rodovia, nos metíamos por uma estrada de terra, e, em poucos minutos, a paisagem mudava: uma grama, a princípio bem tímida, se ia encorpando e ganhando altura, e logo havia arbustos, flores, uns esparsos pés de planta aqui e acolá. Baixávamos, seguíamos a guia, nos familiarizávamos com o parque antes de enveredar por suas trilhas. Aí começava a aventura.

Visitamos um mirador, depois outro, nos enchemos de coragem e tomamos umas fotos valentes. Vimos insetos gigantes, colinas verdejantes, olhos d’água perdidos no caminho. Lá pelas tantas, Jorge me oferece uma chocoteja, um doce típico daqui que consiste em um camafeu de chocolate amargo recheado de manjar branco e noz-pecã. Adoro chocotejas, sempre levo aos amigos quando vou ao Brasil. Mas essa era especial: logo na primeira mordida, senti um calor na boca que se estendeu à garganta, descobriu o peito, amornou o coração. Que delícia! Dei outra mordida e tratei de saborear mais, sentir cada diminuto pedaço, como se aqueles minúsculos grãos fossem galáxias inteiras de sabor, microscópicos corpos celestes cheios de particularidades e desafios que eu mal conseguia elaborar enquanto os esmiuçava com a ponta da língua. Não sei por quanto tempo travei essa batalha orgásmica com a tal meia chocoteja, mas depois disso percebi que meus sentidos todos estavam mais aguçados: eu podia escutar cada som da natureza e do homem, desde o bater de lepidópteras asas até o cochicho viperino das chinesas canibais que nos espreitavam; sentia o cheiro fresco das moléculas em suspensão no ar, tragava seu perfume, tentava comê-las; passava os dedos sobre a pele dos meu braços e me arrepiava inteiro com o orvalho brilhante que se acumulava sobre os meus pelos. E as cores, meu Deus, as cores! Era como se meus óculos tivessem lentes LED capazes de decodificar todas as 16 milhões de cores e projetar tudo em não três, mas quatro ou cinco dimensões. Eu tinha meu próprio olho de Thundera e a visão além do alcance: hou-hou-HOOOOOU! Pegava os objetos e tateava seu corpo, adivinhava a porosidade de sua superfície, descobria as diferentes temperaturas de cada matéria. As pontas dos meus dedos tinham infinitas terminações nervosas: eu me sentia uma estrela-do-mar superestimulada. Era tanta informação que me escapavam uns gemidos enquanto caminhava, embevecido com esse universo novo, intenso, deleitoso. La-lalá, what a beautiful combination sending shivers up and down my spine, a música do Erasure ressoava na minha cabeça, acho que até cantava junto, às vezes parava pra dançar uns passinhos, bem discretamente para que os outros não achassem esquisito. Mas devo ter dado bandeira, a moça dos cabelos brancos percebeu! E me olhou, com seus olhos inquisidores. E deve ter comentado com a mãe, que num átimo voltou a cabeça na minha direção, me julgou e condenou ao fogo do inferno. E então eram muitos olhos, uns olhos redondos, estáticos, todos em mim. Eu queria gargalhar, tudo era tão engraçado, mas por todo lado havia corujas famintas vigiando. Me recolhi, controlei, parei de rir – o que custou muito, porque uma das amigas havia caído quando tentava sentar no que parecia ser o trono de Galadriel, disparando as gaitadas –, introjetei e voltei a admirar a natureza. Estava lá, absorto na esmeraldina imensidão das folhas, quando observo uma forma pitoresca. Ele tratava de manter-se imóvel, mas eu já descobrira seu disfarce: um ent de galhos robustos, fugido da Terra Média, daqueles que lutaram ao lado dos elfos e dos hobbits contra as forças de Saruman. Estava lá, eu vi, e não estava sozinho. Estabelecemos um diálogo silencioso, escutei seus planos de proteção deste novo lar. Compartilhei seu íntimo segredo, dei uma piscadela cúmplice e segui minha jornada, sabendo que ele também tinha uma missão a cumprir.

Alcançamos o ponto de encontro, onde os outros humanos nos esperavam. Fui ao banheiro desaguar, mal sabendo que ali teria um contato imediato de sei lá que grau: o retrete, na verdade, era um buraco no chão, que me falou em uma língua morta há milênios e ameaçou cuspir sua lava se eu não saísse correndo. Escapei, alertei os outros que não fossem lá, subi no ônibus e sentei. O relógio teimava em procrastinar, e do lado de fora mais olhos, mais olhos. Dormi (no sonho). O ônibus seguiu até nossa próxima parada, um castelo medieval à beira-mar no povoado de Chancay. Acordei (no sonho), ansioso por ver as ruínas mágicas e, quem sabe, bater um papo com Merlin se ele estivesse de bobeira. Mas nesse momento devo ter alucinado, porque de repente vi uma bilheteria, um velhinho vendendo algodão doce, crianças pulando num jacaré inflável, palhaços montados em pernas de pau, bailarinas exóticas requebrando ao som de reggaeton e, ao fundo, paredes de tijolos falsos no que parecia ser um palácio bem cafona armado com peças Lego. Perambulamos por esse recinto, evitando as filas de zumbis, até que encontramos uma proa de navio de pirata, na qual quis reproduzir a clássica cena de Rose De Witt Bukater e Jack Dawson em Titanic, mas nem Jorge animou nem a multidão interrompeu a fúria das selfies para que eu pudesse lograr meu intento. Subi à mais alta torre do castelo de Lego, olhei o horizonte e me comuniquei com o oceano. Vi o céu, vi o mar, vi além. Lembrei das moléculas cheirosas que não conseguia comer e me fartei mesmo foi com uns alfajores lambuzados de coisa doce. Senti uma molezinha, joguei uma moeda no poço dos desejos (ainda penso que aquele balde era de isopor) e fui me aninhar no ônibus.

Dormi (no sonho) e acordei, por fim, do sonho. Atordoado, destrambelhado, sem conseguir diferenciar realidade e matrix. Mas com um sentimento incrível de regozijo, um elã único, pura joie de vivre.

Pra minha tristeza não tinha do bolo chocolate em casa. Mas tinha chocoteja.

Delícia de feriado. Quero mais.

Como eu, como tu, como tudo

Sempre me impressionou como os peruanos usam muitos ingredientes na sua preciosa gastronomia: quem já viu a elaboração de uma boa leche de tigre sabe do que eu estou falando. Outro dia provei um molhinho (“aderezo”, olha que lindo) que a empregada da Giuliana fez para acompanhar um arroz con pollo, coisa mais besta, parecia, e pedi para ela me ensinar. Qual não foi minha surpresa quando ela elencou tudo o que tinha despelado, picado, curtido, temperado etc. naquela aparentemente simples e prática sarza criolla…
Daí que hoje eu me dei conta que tampouco sou econômico ou objetivo quando vou pra cozinha. O almoço de hoje,por exemplo, vai ser uma riquíssima salada, que todo mundo na casa está de dieta (menos Luna, a esgalamida). A base, claro, é alface, porque aqui não tem tanta opção de folha. Daí, pra incrementar e proporcionar algum prazer gourmet, fui acrescentando: cebola roxa, ají amarillo (um tipo de pimenta), tomate, cenoura ralada, milho, amêndoas torradas, passas, semente de girassol, atum, alcaparras, azeite de oliva, pimenta do reino, sal rosado de Maras e suco de limão. E uns croutons de pão pita praquele croc.
Não deve ter ficado delicioso como os pratos típicos daqui (preparei um olluquito outro dia que ficou SUPIMPA, e a meta agora é criar coragem para fazer carapulcra), mas eu vou tentando, e um dia aprendo.
Gastón Acúrio que se cuide.

See I gotta work it out

Resisti o quanto pude: enrolei, pesquisei, desconversei, fiz uma aula de teste, desisti, sumi, reconsiderei, topei e hoje tive meu debut na academia, com personal trainer e tudo. A idade exige. As juntas doem, a bunda tá aguada, não tenho músculos e quase infarto se corro 100 metros: tava na hora de cuidar do corpo. Assim, deixei de lado toda minha resistência e desafeto pela coisa, me inscrevi e fui.

Pus o despertador pras 6h, mas deixei o celular no silencioso (o subconsciente lutando?) e acordei por sorte (sorte?) às 6:48h, ou seja, tive 12 minutos para: fazer o xixi e a toalete básica, limpar cocô da Luna, tomar água, comer meia maçã, botar shortinho curtinho, camiseta de tecido “respirável” e tênis combinandinho e checar à cadimia para encontrar o instrutor, que me esperava cheio daquela energia típica de quem levanta às 5 da manhã, corre 10km e desjejua um delicioso shake de whey com sua albumínica omelete de 8 claras de ovos.

Cheguei já suado, os olhos remelentos, apreensivo mas certo de que, sendo o primeiro dia, a parada seria mais light. Não podia estar mais enganado: o tal do personal, com seu sorriso escancarado, é um sádico treinado nas trincheiras do Ceilão. Começou com exercício pros ombros, agachado, levantando dois halteres de 10 kg, três séries de doze repetições, intercalando com prancha “pra fortalecer os glúteos e o abdome” e uma coisa que não sei nem explicar, de tão horrorosa: eu ficava pendurado numas alças, apoiando os pés no chão, inclinado a 45o e tendo que levantar o corpo com a força (que força?) dos braços. E essa foi só a PRIMEIRA sequencia.

Depois, alternei rosca martelo, extensão de tríceps e abdominais. Eu lá, na maior dificuldade do mundo pra levantar uns pesinhos menores que a minha nécessaire de viagem, enquanto umas mocinhas magrelas e maquiadas conversavam alegres e satisfeitas enquanto puxavam 40, 50 kg. Um dia, quem sabe, pensei.

Logo me baixou a pressão: comecei a suar frio, a respiração agitada, os olhos meio turvos. “Não comeu nada antes de vir?”, perguntou meu algoz, ao que mentalmente respondi: “Meia maçã lá é comida, seu carrasco peidão???”, tratando de me manter desperto e não passar mais vergonha. Parei uns dois minutos até o sangue voltar pra cabeça e segui no martírio: mais ombro, mais bíceps, mais tortura. Ao final, o instrutor levou minha carcaça até um prato vibratório, com a promessa de soltar os músculos “pra relaxar”. De fato, no começo era o céu: o troço tremia tudo, e eu só tinha que ficar parado sem fazer nada, uma beleza de massagem. Mas aí ele aumentou a frequência e disse para soltar as mãos e me equilibrar, e de repente era um terremoto de uns 7 graus me chacoalhando até os miolos, um horror. Saí moído, aterrorizado, com a certeza de que amanhã não levanto nem as pálpebras. Mas não tenho escapatória: às 7 da madrugada Chris, o impiedoso, já estará pronto para me deixar com o físico do Joe Manganiello. Se sobreviver, eu chego lá.

Paris, dia 9: Le Grand Finale!

Paris amanheceu nublada, triste com a despedida que se aproximava. Eu e Camilinha não tínhamos mais pressa, não queríamos bater ponto em novos pontos turísticos: a ideia era só curtir a cidade, voltar a alguns lugares de que gostamos, consolidar o que queremos guardar na lembrança. Andamos pela rue de Rivoli até o Marais, passando pelo Hotel de Ville, pelas banquinhas de ambulantes na calçada da BHV, pela Pain de Sucré. Peguei os óculos novos, que ficaram um espetáculo, e me permiti um galanteio maroto…

Camila et moi, les français

Camila et moi, les français

Chegamos ao Benoît, reservado na noite anterior, para um menu frugal: gougéres quentinhos e coelho desfiado para abrir o apetite, uma tarte de sardinha com salada de entrada, bavette acompanhada de uma massa seca no molho reduzido da própria carne e, de sobremesa, um savarin ao armagnac. O restaurante é lindo, a comida estava especial, a sommelier, uma fofa… Foi ótimo, afinal – a dica da Marida valeu demais!

Almoço frugal no Benoît

Almoço frugal no Benoît

Entupidos igual à Miss Piauí, voltamos a uma ótica pra Camis comprar seus óculos de sol de bacana. Passamos de novo pelo Beauborg, fizemos um pit stop no hotel e rumamos à Champs-Élysées, pois ela ainda queria procurar uns negocinhos na Sephora. E lá estava eu, fazendo hora no meio da loja enquanto ela se fartava, quando de repente uma mão de alvura ímpar, branca como a igualdade, delicadamente me cobriu os olhos para que eu lhe tentasse adivinhar. Que surpresa mais deliciosa quando me virei e vi ali, alta, linda e loira, minha própria Dra. Raquel, que desfrutava o derradeiro dia de uma temporada em comemoração aos seus 10 anos de amor. O encontro com Inácio foi outra festa no meio da loja, e já combinamos um piquenique noturno para mais tarde, pois eles iriam jantar com uns amigos, e eu e Camis tínhamos outro plano também. Seguimos perambulando por ali, observando o movimento nas ruas, e cruzamos o rio pela Ponte De l’Alma. Descobrimos tardiamente o Musée du quai Branly, de cara eleito parada obrigatória na próxima visita, e nos encantamos com o lindo prédio vizinho, cuja fachada tem uma floresta vertical alucinante. Chegamos, enfim, à Torre Eiffel. Depois de duas horas de fila, debaixo de vento frio e chuvinha chata, subimos até o topo do emblemático cartão postal e constatamos: Paris é estonteante vista do alto, com suas luzes amarelas, suas praças monumentais, o Sena refletindo a lua cheia. Neste passeio conhecemos Isabel e Carolina, mãe e filha nicaraguenses que foram as companhias mais adoráveis que jamais podíamos esperar. Enfrentamos outra hora de fila para descer – mesmo tarde da noite numa terça-feira úmida e gelada, muita gente vai lá, talvez buscando sentir-se um pouco parte dessa cidade -, e na saída nos esperavam Lôra e Inácio, com queijos, frios, torradas e vinhos para uma noitada mágica cheia de alegria e cumplicidade.

O casal mais lindo e querido, comemorando seus 10 anos de amor

O casal mais lindo e querido, comemorando seus 10 anos de amor

Ficamos ali, no pé da torre, sentados num banco, comendo, bebendo, fazendo graça, na companhia de Remy (lembra de Ratatouille, o filme da Disney? então) e seus amiguinhos gabi-roux, até alta madrugada…
C’est fini! As férias mais espetaculares da minha vida acabaram deliciosamente. Visitei 14 cidades em 6 países, falei alemão, inglês, francês e até holandês, vi obras de arte fabulosas e visitei templos seculares. Comi croquete na rua e degustei a alta gastronomia de restaurantes estrelados, aprendi como se faz cerveja e como lapidam diamantes raros, assisti a uma ópera numa das casas de concerto mais tradicionais do mundo e fui ao show da Dionne Warwick. Brinquei de montanha-russa e me deslumbrei com a imensidão azul do mar. Conheci muita gente, estreitei alguns laços, afrouxei outros, e, principalmente, ampliei meus horizontes. Claro que faltou muita coisa: os lugares não se esgotam, e nenhuma viagem pode ser definitiva, até para que haja motivo para voltar. Mas retorno pra casa renovado, perturbado, cheio de ideias e desejos. Era isso o que eu queria quando iniciei essa jornada, e a missão (comprida) está cumprida. Foi bom demais.
(texto de 05/06/2012)

Paris, dia 8: Turista é o car…, meu nome é PARISIÉN!

Depois de dias perambulando meio mulambentos, decidimos nos montar para encontrar meu amigo Rogério, que pontualmente às 10 nos esperava no saguão do hotel. Ele nos levou ao Marché aux Puces de St-Ouen, o mais antigo e famoso mercado de pulgas de Paris, no Porte de Clignancourt, última estação da linha 4 do metrô. Muitas lojas ainda não estavam abertas, pois na segunda os comerciantes esticam a soneca, mas deu pra gente babar nos móveis palacianos, nos jogos de cristais rebuscados, nos quadros e esculturas seculares… Quando a alergia atacou o Roger, e o passeio já tinha valido, fomos almoçar no Lémoni, primeiro restaurante onde ele trabalhou aqui, um café bio com receitas vegetarianas muito bem preparadas e um tempero delicioso da Corsa. Circulamos pelas lojinhas quase abandonadas mas ainda chiquérrimas do Palácio Real (a boutique de perfumes Serge Lutens é das mais charmosas que já vi), seguimos pelo comércio grifado na rue Saint-Honoré – inclusive passando vontade na Colette, onde uma camisa que se comunicou comigo custava básicos mil orrôs e me obrigou a comprar uns chocolates pra compensar -, batemos perna em Les Halles em busca do framboisier perdido, paramos pra uma cerveja, seguimos ao Marais. Como a temperatura caiu vertiginosamente ontem, rolou um pit stop pra Camilinha comprar uma jaqueta bem linda e se cobrir mais, que o ventinho gelado tava realmente de lascar. Passamos pela igreja St-Merri, onde vimos uma instalação bem alegrinha, com mil enfeites de papel colorido pendurados no teto da nave central, e ainda vimos um ensaio do que parecia ser um concerto meio modernoso, com artistas cheios de estilo fazendo bico e cara de entojo. Já na happy hour, sentamos no Raidd para mais uns drinks e ficamos lá conversando besteira e vendo o trânsito da gente bonita de Paris. Com fome, rodamos um pouquinho e paramos no L’Alivi, um bistrô morto de gracioso com um belo (ops) atendimento e comida fantástica: meu boeuf au poivre veio macio, saborosíssimo e com umas batatinhas que ai, ai.

Boeuf au poivre no L'Alivi

Boeuf au poivre no L’Alivi

Nos despedimos dos meninos (Jean nos encontrou pro jantar) e voltamos ao hotel. Levei quase duas horas para arrumar as malas, e agora está tudo pronto pro nosso último dia – oh, dor! – por aqui.

(texto de 04/06/2012)

Paris, dia 7: Cadê a Bastilha?

Quem é que acorda cedo nessa terra? A gente é que não é, porque o cansaço nos derruba com força e é preciso repor as energias se quisermos continuar aproveitando. Com isso, levantamos num pulo e nos arrumamos depressa para ainda pegarmos a rebarba do Marché Bastille, a maior feira de rua de Paris. E que feira incrível, viu? Frutas e legumes que pareciam de plástico de tão perfeitos, ervas e temperos de todo tipo, sabonetes de Marseille, queijos mil, charcuterie e televisão de cachorro, vinhos a rodo… Ai, ai, ai! Comemos galette (não confundir com crepe, sob risco de levar uma ovada de um francês mais ortodoxo enfurecido) e tomamos sidra, tudo muito autêntico e delicioso, e não resisti ao Crémant d’Alsace quase de graça que um vendedor marroquino que falava português me mostrou. Procuramos a Bastilha até descobrir que ela não existe há coisa de 250 anos (é, eu gazeava as aulas de História), mas tiramos umas fotos da torre e da Ópera. Saímos de lá e cruzamos o 11e Arrondissement, passando por um típico mercado de pulgas na rue Saint-Bernard, até chegarmos ao gigante Père Lachaise, mais visitado cemitério da Europa, onde repousam os restos mortais de vários franceses ilustres. Vistamos os túmulos de Allan Kardec, Edith Piaf, Oscar Wilde, Rossini, Modigliani, Moliére, La Fontaine, Jim Morrison e dos amantes Abelardo e Heloise. Há quem veja morbidez num programa desses, mas eu, que já coordenei o marketing de uma rede de cemitérios, me divirto!

Edith Piaf (1915-1963)

Edith Piaf (1915-1963)

Jim Morrison (1943-1971)

Jim Morrison (1943-1971)

Pegamos um trem para o Marais e, aproveitando que meu cartão ainda tava bem black, comprei uns óculos faaaashion que queria, me dei um eclair de chocolate da Pain de Sucré pra comemorar e arrastei Camilinha pro Le Tango, crente que íamos arrasar no ballroom, mas tava rolando mesmo era uma Shakira loca-loca-loca e all the single ladies moving like Jagger na pista!

Óculos novos!

Óculos novos!

Kamilinha e seu paquera no Le Tango

Kamilinha e seu paquera no Le Tango

Depois de umas cervejas a gente achou tudo muito divertido, até as exóticas apresentações (?) de dança (???) que mais pareciam aquelas marmotas a que obrigavam a gente na escola, quando ainda não tínhamos senso crítico nem força física para nos defendermos. Saímos famintos e paramos no Derriére, um restaurante morto de descolado que avistamos por acaso da rua, cheio de gente bonita, com uma mesa de ping-pong no meio do salão e servindo umas vieiras fabulosas! Saciados, felizes e imprestáveis, voltamos ao hotel e nos jogamos na cama, que amanhã cedo o Rogério vem nos buscar pra passear!

(texto de 03/06/2012)