Uma babá quase imperfeita

Eu tinha 14 anos quando vó Belinha morreu. Jô, a empregada que morava em casa com seu filhinho Samuel, era muito apegada a ela e se deprimiu, teve que voltar pra sua cidade porque não aguentava estar ali. Assim, vivi só com Fatoca por seis meses, até que um dia ela me chegou com esse papo:

– Arrumei uma pessoa.

– Pra quê? Tá namorando? Uhuuuu! Razô, mamis!

– Pra cuidar de você, da casa.

– De mim? (eu me sentia bem adulto, só me faltava essa babá agora)

– É, mas ela não quer ser empregada nem receber salário: o acordo é que ela cuida de tudo, mora com a gente, mas vai continuar estudando e vai buscar um emprego fora.

– Bom, mãe, a dona da casa é a senhora, né? Vou dizer o quê?

– É do interior, tem princípios. Foi freira por 10 anos, uma moça muito boa.

– Foi o quê?

– Freira, meu filho. Mas já saiu.

– Freira? Freira, freira? De igreja, hábito, terço na mão?

– Noviça. Josefina. Não é mais. Amanhã de manhã ela chega. Certeza de que vocês vão se dar bem.

Assim foi que Ana Célia entrou na minha vida, com seus olhos redondos arregalados, seu silêncio desconfiado, as sandálias franciscanas – josefinas, quer dizer –, o cabelo pixaim. Chegou apreensiva, mal abria a boca, e encontrou um menino curioso, mimado, cheio de manhas e sonhos.

De lá pra cá, muita coisa mudou: os seus cabelos, quanta diferença… de normalista ela passou a telefonista, depois passou em concurso público e hoje trabalha debaixo do sol quente e tem voz muito ativa na greve da categoria; mamãe mudou de plano astral; eu mudei de cidade, de país, e hoje acumulo cabelos brancos, rugas na cara e uns sonhos realizados.

Ao longo dessas mais de duas décadas, construímos uma relação especialíssima, de vasta cumplicidade, apoio e amor. Quando eu decidi que não teria uma família convencional, ela me acolheu sem julgar, ainda que intimamente lhe faltasse entendimento. Quando mamãe se enfermou, ela lhe cuidou como se filha fosse – e filha era, e irmã minha é. Quando a saudade apertou, venceu o pânico e se meteu num avião até São Paulo para estar comigo. Depois veio mais longe, até Lima, quem diria. E vai até onde for, eu sei, porque descobriu que não tem limites, que dá conta de qualquer desafio.

Ela é braba, grossa, não aguenta injustiça nem desaforo. Tem a língua mais rápida do oeste, do leste, de qualquer ponto cardeal. Desconhece a falsidade – o que lhe rende desafetos de pronto reduzidos à insignificância que merecem. Mas quando ama, ah!, ela ama de verdade. Disso eu dou fé. Sou seu menino, como ela me apresenta nos seus círculos sociais. O filho que ela não pariu. O amigo de todas as horas. O porto seguro. Como ela, pra mim.

Hoje Ana Célia fez aniversário. Acompanhei o trotar dos ponteiros para interromper seu sono e ser o primeiro a cumprimentá-la. Queria estar lá para dar um abraço acochado, jantar numa japa, compartilhar nossos segredos. Daqui, rezei pela sua saúde, pedi proteção, mandei boas vibrações. Nos falamos de novo no começo da noite. Confidenciamos, rimos, irmãos. Ela segue morando na minha casa, cuidando de tudo. Trabalha e quer fazer faculdade, no que tem meu total incentivo. Ainda que apartados por um continente, estamos juntos. E estaremos sempre.

Tava certa, Fatoca. A gente se deu muito bem.

IMG_5131

Anúncios

Diga lá!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s