Conexão Lima – Oz

Depois de anos, muitos anos, uma prima amada me manda uma mensagem dizendo que vem por aqui. Nos reencontramos, nos adicionamos às agendas e, em minutos, nos reintegramos às vidas um do outro. Back home, como se nunca tivesse sido longe. Nunca foi, talvez: apenas esteve. E outros poucos minutos depois, seu irmão, meu também primo, meu também amado, de repente de volta à minha vida e eu de volta à sua. Como se nunca houvesse deixado de. Como se sempre. Porque sólido, porque fogo – porque sempre, afinal. Ela me enviou seu prematuro roteiro de viagem que começa e termina pelo Peru, ansiando por me ver. Ele, orgulhoso, mostrou os cachorros e a casa nova. Eu, que num restaurante esperava a amiga de décadas e seu marido e mais duas novidades, tratava de controlar as lágrimas, pois homem não chora, me ensinou vovó. Mas eu queria mesmo era chorar, queria mais era voltar 20 anos no tempo e cantar aquelas músicas dos Mamonas com meus primos meninos, trepar na jabuticabeira do seu quintal, jogar videogame com eles. Quanto vento soprou desde aquele então. Já não somos crianças, agora temos contas e bebemos vinho e viajamos sozinhos pelo mundo. Viramos a gente grande de quem nos ríamos nos churrascos da família.

Mas preservamos a cumplicidade conquistada, ou melhor, construída. Muito mudou, é verdade, só que debaixo de tantas camadas ainda nos reconhecemos, e nos sabemos, e nos queremos. Me pego vendo suas fotos publicadas em redes sociais e lamento não estar nelas. Reviso as minhas fotos guardadas no computador, e meu coração aperta ao não encontrar registro desse período tão importante e precioso. Sinto saudades do que a gente viveu e do que a gente podia ter vivido. Penso, ansioso e contente, nos lugares que vou mostrar à minha prima, no vinho que vamos tomar, nas risadas que vamos compartilhar. E nas muitas, muitas fotos que vamos tirar.

Seja bem-vinda a Lima, prima. E muito bem-vinda, uma vez mais, à minha vida.

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Sujeira, culpa e chibata

Estou cansado de viver sob a sombra de uma chibata moralista que me espreita pronta para açoitar impiedosamente. Estou cansado dos juízos simplistas, dos dedos apontados, das culpas.

Há poucas semanas a presidenta do Brasil lembrou, num debate, o incidente em que o candidato Aécio Neves, então senador, foi parado em uma blitz e se recusou a fazer o teste do bafômetro. Tinha a carteira de habilitação vencida e supostamente dirigia embriagado. Claro está, coberto de erros: cometeu pelo menos duas infrações gravíssimas segundo o código de trânsito e, se ia de fato bêbado, pôs vidas em risco. O que mais me chocou no caso, entretanto, foi a onda – o tsunami, melhor – de julgamentos morais, a quantidade de comentários que li sobre uma alegada improbidade atribuída ao sujeito não por causa de seus feitos ou desfeitos políticos, mas por sua conduta pessoal, como cidadão. De repente uma multidão de paladinos dos bons costumes (seria a tal “gente do bem”?) encorpou um discurso que o execrava como se o próprio tinhoso fosse, por sua falha tão humana quanto comum. Porque guarde a primeira pedra – já há suficientes voando por aí – quem nunca se entorpeceu ou não tem um chegado que o tenha feito, usando drogas lícitas ou não, com propósitos espúrios ou por ingênua diversão. Eu mesmo já dirigi alcoolizado, digo sem nenhum orgulho, e conheço muita gente que até hoje dirige. Gente muito “do bem”, inclusive, mas que também se apressa em julgar quando lhe convém. Como muito bem definiu um amigo uma vez: “Fantasia é o que eu faço entre quatro paredes sem ninguém saber; imoralidade é a mesma coisa, mas quando o outro faz e se torna público”. Ou seja, a sua imundície me ofende, mas a sujeira que fica no meu umbigo está permitida, já que eu não vejo – nem quero ver.

Outro dia foi a caça às bruxas com o povo nu em Porto Alegre. Pessoas que encontraram na nudez sua forma de protesto, já que a sociedade parece se chocar tanto com corpos expostos na rua – mas na novela das 9 pode cena de sexo (beijo gay, não), nos comerciais de cerveja pode mulher pelada, no carnaval e no futebol e na festa infantil que toca funk proibidão também pode. Sim, pode mesmo. Tem que poder. É pele, meu povo. É pescoço, braço, peito, bunda, piroca, xereca, cabelo, sovaco, nada que seja tanta novidade assim. Mas, de novo, não faltam censores para criticar a exposição – ou a liberdade – alheia.

Agora é esse papo do aborto. É um tema sério, importantíssimo, que precisa ser discutido a fundo e que necessita de novos entendimentos e caminhos no Brasil. Há muitas nuances, alguma ética e um sem número de argumentos para cada situação: os cenários são múltiplos, aliás são absolutamente particulares, e as decisões deveriam, sim, ser mais subjetivas (no sentido de pessoais). Mas é outro assunto espinhoso, que resgata uns tais valores confundidos com transcendência que justificam críticas condenatórias perigosamente massificadas. Como no caso dos indiciados pelo “apoio moral” à moça Jandira, que morreu ao tentar fazer um aborto clandestino. Ora, não vou fazer confissões nem expor ninguém, – e mesmo ao não fazê-las já deixo clara minha inclinação. Mas penso que a mulher tem que ser consciente e soberana para fazer suas escolhas, inclusive quanto à interrupção da gravidez. Tenho muitas amigas mães, acompanhei muitos dramas, de perto até. Sei que a maternidade enleva e realiza, mas também sei o quão desafiadora e torturante ela pode ser. Foro íntimo é o que eu defendo. E respeito à diferença de opiniões e às escolhas do outro.

Culpa é uma semente de ódio que metem na nossa cabeça desde muito cedo, e apontar dedos é regar esse ódio. Em vez de cuidar das vidas alheias, cuidemos de manter os nossos umbigos limpos. Ou aceitemos essa sujeira deles, lembrando que ela não é melhor nem pior que nenhuma outra.

Outros bairros

Tenho um defeito de caráter, admito: costumo circunscrever meu cotidiano à microrregião onde moro, minimamente ampliada em um ou dois bairros, quando tanto. Em Fortaleza, era o Parque Araxá (e a Parquelândia) mais o caminho pro Colégio ou pra faculdade, nem 3km de distância, acrescidos da rota pro Iguatemi, onde eu costumava gazear aula e dar um rolezinho nos finais de semana. Quando cheguei a São Paulo e morei na residência universitária, fazia tudo o que podia dentro do campus: além das aulas e do trabalho, eram filmes no CINUSP, vôlei no Cepê, vernissages (vulgo BOCALIVRE!) no Paço das Artes, farras na Festeca… Mudando pra Vila Madá, aí é que não variava mesmo: vivia no melhor bairro da cidade, fazia tudo a pé e não queria mais nada. Fui pra região da Paulista e, de novo, o mais longe que ia era o escritório: caminhava até a Faria Lima e, no percurso de volta, resolvia a vida pertinho de casa. Aqui em Lima não é diferente: Miraflores é um distrito prático, seguro, bonito. Tem tudo: restaurantes, centros culturais, cinemas, lojas, serviços, conveniência. De vez em quando vou a Barranco para uma noitada ou a San Isidro resolver qualquer coisa, mas quase sempre fico pelo meu bairro mesmo.

Mas hoje foi dia de explorar. Jorge amanheceu criativo e inventou de ir ao Mercado Municipal de Magdalena. Eu havia ido lá uma vez para comprar ingredientes quando preparamos as hallacas no último Natal, mas hoje o plano era descobrir os huariques no mercado e suas delícias escondidas. Chegamos e passeamos pelos apertados corredores aos gritos de comerciantes que competiam freneticamente pelos muitos fregueses. Muita gente se amontoava para comer nos balcões de espaço mínimo, e a fome apertava. Decidimos tentar um restaurante na cercania, e que grata surpresa foi encontrar o Los Esteros de Tumbes: cerveja gelada, atendimento cortês, ceviche fresco e muito bem preparado, seguido de um tacu-tacu de pallares con salsa de lansgotinos que papai-do-céu. A sobremesa foi espalhada: uma crema volteada ali, um três leches de chocolate acolá, enquanto caminhávamos até San Miguel, bairro onde o Jorge cresceu. Nos perdemos por ruas com cara de infância, que me pareciam familiares como aquelas fotos em cores lavadas nos velhos álbuns de fotos na casa da tia cheirando a talco. Ele me mostrou o colégio onde estudava, a casa onde viveu, contou as histórias dos vizinhos, se emocionou e me emocionou junto. Seguiríamos ao Lugar de La Memoria, mas um amigo nos contou que o museu estava fechado, então voltamos à casa para descansar um pouco. No fim do dia, fomos conhecer uma sorveteria nova – e espetacular – que abriu perto de casa, a Amorelado, instantaneamente agregada aos sites favoritos. Buchos devidamente esfriados e preenchidos, rumamos ao Puericultorio Perez Aranibar, onde está rolando um projeto teatral super bacana chamada Kontenedores: 14 micropeças de 15 minutos são apresentadas a audiências reduzidas em 7 contêineres espalhados num jardim, onde há também um bar, comidinhas e um DJ animando o ambiente. Vimos duas esquetes cômicas (“Armadas hasta los dientes” y “Ese dedo”), com textos e atores afiados, e saímos com a sensação de um domingo deliciosamente diferente.

O aprendizado do dia foi que há muita coisa interessante acontecendo por aí, onde a mão curta não chega ou o olhar preguiçoso não alcança. Escapar do umbigo é preciso; viver não é preciso.

Coma, Lemu, coma!

Dias e dias tomando receitas mirabolantes de sucos com tudo quanto é vegetal e fruta, tentando me convencer de que um copo de extrato de aipo com beterraba e melão é uma refeição gourmet que não apenas supre minhas necessidades nutricionais e psicoafetivas como também embeleza a figura, enobrece a alma e me salva do purgatório.

Daí ontem eu cansei dessa frescura e resolvi ser feliz: fui ao supermercado, comprei nachos, tacos, carne moída, abacate, feijão preto, queijo muçarela e pimenta, muita pimenta. Preparei O almoço mexicano, comi até quase espocar, tomei toda a cerveja que quis e arrematei com um potão de sorvete de chocolate. Pra compensar, fui pra ioga mesmo com o bucho estufado, e hoje às sete da madrugada tava na cadimia pra sessão regular de tortura.

Até agora a barriga dói da comilança, mas o sorriso dá três voltas na cara. Porque acho super bonita essa coisa de alimentação natural, orgânicos in, transgênicos out, fat free, low carb, no taste, pão sem glúten, leite deslactosado, café descafeinado, água desmineralizada etc. etc. Mas eu gosto mesmo é de COMER, disculpaê.

Beauty lies in lovers’ eyes (ou “Beauty, I <3 you"]

Agosto de 1995. Não faço mais a conta dos anos, esqueci a data certa também. Mas lembro dos óculos de resina preta, pesados, grandes, contrastando com teus olhos e boca miúdos. Uma cara branca, cheia de bochecha, emoldurada pelo cabelo encarnado no corte chanel. Achei o máximo ter na sala um cosplay da Velma [aquela do Scooby-Doo], e o interesse cresceu quando você disse que havia estudado no Lourenço Filho (colégio de gente dos “outros bairros”, já me identifiquei logo) e sonhava ser astronauta. No primeiro dia, a primeira arenga: geniosa, essa aí, pensei. Te saquei de cara.

Foi numa aula da Coema que eu me apaixonei por ti. Tu discutiu alguma nuance de um verso do Chico, uma figura de linguagem qualquer. Chegou uma, chegou a outra, nos chegamos todos e formamos o mais emblemático trio de quatro que o velho pátio da Comunicação já conheceu. Os beijos coletivos, o Pertinho, a Quadra do Céu, o Culto a Baco… tanta história em tão pouco tempo, num foi?

Porque eu fui embora. Na festa de Halloween que me armaram de despedida recebi um cartão com mensagens de todos os colegas, guardado até hoje, e entre tantas palavras lindas e cheias de sentimento, duas linhas tuas, parafraseando Dominguinhos: “Amigos a gente encontra, o mundo não é só aqui”. De fato o mundo não era só ali, e ele me chamava. Fui, vi, venci. Venci porque encontrei novos amigos sem nunca perder os que tinha – meu maior tesouro, não canso de dizer. E venci de novo quando, me sentindo mundo, te chamei. Pra minha imensa alegria, você foi.

Dividimos o teto, as incertezas, a dose de tequila. Fomos vizinhos, partilhamos açúcar e afeto, a dor e a delícia de ser quem éramos. Quantos segredos nos confidenciamos? Quantas vezes nos abrimos um pro outro? De quantas máscaras nos despimos? Tu, certeza, de bem menos do que eu, que tanto me resguardo quase sempre. Mas não contigo. Contigo não preciso nem posso me esconder de mim, porque tu me sabe no íntimo, no ínfimo. Porque somos feitos da mesma matéria – no que ela tem de melhor e pior.

Você é grossa. Assumidamente, convencidamente grossa. E seria muito mais se não fosse o teu personal-RP-Tabajara aqui. É sincera em excesso, objetiva em excesso, teimosa que só. Apaixonada, eu digo. E apaixonante. Uma mulher movida a paixões e que igualmente as move. Pra ti não basta correr: tem que ter cinco pares de tênis diferentes, baixar todos os aplicativos, treinar com um especialista, participar de provas – quer dizer, tirando aquela vez quando tu me convenceu a me inscrever e, na hora H, disse que não ia porque tava de ressaca. Não basta, também, ter um gato de estimação: têm que ser três, quatro, cinco, tem que virar gateira e participar dos grupos de discussão, tem que ignorar minha alergia e me fazer ir cuidar deles quando tu viaja (haja areia, haja bolinha, haja pelo). Pra ti não basta aprender o ponto tricô e o inverso: tem que aprender a tecer o fio, conhecer todas as agulhas e lãs existentes, me fazer o slouch mais incrível, montar um site, largar o jornalismo para virar tricoteira, professora e, agora, artista. Aliás, “agora” não: tu sempre foi artista: no teatro, no coro, na vida. Pelas tuas paixões e pelas tuas artes, eu te admiro muito. E sei que não sou o único.

Hoje digo oi pra ti (inside joke, opa), e te digo feliz aniversário também. Estamos fisicamente mais longe do que nunca, mas, intimamente, talvez mais perto do que sempre. Quem sabe que novas aventuras o destino nos guarda?

Ontem tu me pediu para escrever uma carta de amor. Tá aqui, só que nem é manuscrita nem pra mais ninguém: é pra ti.

Te amo, gata. Te amo que só a piula.

Happy Beauty-Day!

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