Sujeira, culpa e chibata

Estou cansado de viver sob a sombra de uma chibata moralista que me espreita pronta para açoitar impiedosamente. Estou cansado dos juízos simplistas, dos dedos apontados, das culpas.

Há poucas semanas a presidenta do Brasil lembrou, num debate, o incidente em que o candidato Aécio Neves, então senador, foi parado em uma blitz e se recusou a fazer o teste do bafômetro. Tinha a carteira de habilitação vencida e supostamente dirigia embriagado. Claro está, coberto de erros: cometeu pelo menos duas infrações gravíssimas segundo o código de trânsito e, se ia de fato bêbado, pôs vidas em risco. O que mais me chocou no caso, entretanto, foi a onda – o tsunami, melhor – de julgamentos morais, a quantidade de comentários que li sobre uma alegada improbidade atribuída ao sujeito não por causa de seus feitos ou desfeitos políticos, mas por sua conduta pessoal, como cidadão. De repente uma multidão de paladinos dos bons costumes (seria a tal “gente do bem”?) encorpou um discurso que o execrava como se o próprio tinhoso fosse, por sua falha tão humana quanto comum. Porque guarde a primeira pedra – já há suficientes voando por aí – quem nunca se entorpeceu ou não tem um chegado que o tenha feito, usando drogas lícitas ou não, com propósitos espúrios ou por ingênua diversão. Eu mesmo já dirigi alcoolizado, digo sem nenhum orgulho, e conheço muita gente que até hoje dirige. Gente muito “do bem”, inclusive, mas que também se apressa em julgar quando lhe convém. Como muito bem definiu um amigo uma vez: “Fantasia é o que eu faço entre quatro paredes sem ninguém saber; imoralidade é a mesma coisa, mas quando o outro faz e se torna público”. Ou seja, a sua imundície me ofende, mas a sujeira que fica no meu umbigo está permitida, já que eu não vejo – nem quero ver.

Outro dia foi a caça às bruxas com o povo nu em Porto Alegre. Pessoas que encontraram na nudez sua forma de protesto, já que a sociedade parece se chocar tanto com corpos expostos na rua – mas na novela das 9 pode cena de sexo (beijo gay, não), nos comerciais de cerveja pode mulher pelada, no carnaval e no futebol e na festa infantil que toca funk proibidão também pode. Sim, pode mesmo. Tem que poder. É pele, meu povo. É pescoço, braço, peito, bunda, piroca, xereca, cabelo, sovaco, nada que seja tanta novidade assim. Mas, de novo, não faltam censores para criticar a exposição – ou a liberdade – alheia.

Agora é esse papo do aborto. É um tema sério, importantíssimo, que precisa ser discutido a fundo e que necessita de novos entendimentos e caminhos no Brasil. Há muitas nuances, alguma ética e um sem número de argumentos para cada situação: os cenários são múltiplos, aliás são absolutamente particulares, e as decisões deveriam, sim, ser mais subjetivas (no sentido de pessoais). Mas é outro assunto espinhoso, que resgata uns tais valores confundidos com transcendência que justificam críticas condenatórias perigosamente massificadas. Como no caso dos indiciados pelo “apoio moral” à moça Jandira, que morreu ao tentar fazer um aborto clandestino. Ora, não vou fazer confissões nem expor ninguém, – e mesmo ao não fazê-las já deixo clara minha inclinação. Mas penso que a mulher tem que ser consciente e soberana para fazer suas escolhas, inclusive quanto à interrupção da gravidez. Tenho muitas amigas mães, acompanhei muitos dramas, de perto até. Sei que a maternidade enleva e realiza, mas também sei o quão desafiadora e torturante ela pode ser. Foro íntimo é o que eu defendo. E respeito à diferença de opiniões e às escolhas do outro.

Culpa é uma semente de ódio que metem na nossa cabeça desde muito cedo, e apontar dedos é regar esse ódio. Em vez de cuidar das vidas alheias, cuidemos de manter os nossos umbigos limpos. Ou aceitemos essa sujeira deles, lembrando que ela não é melhor nem pior que nenhuma outra.

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