Bitch!

Aos 3 meses de idade, reparamos que Luna sentia uma dor: não caxingava, mas sempre reclamava quando agarrávamos sua pata traseira direita, que era menos forte que a esquerda. Tinha coisa errada ali. Levei ela à clínica, onde foi examinada e diagnosticada com uma inflamação, possivelmente decorrente de uma queda. Mandaram dar um remédio e disseram para voltar em uma semana. Passados uns dias, de fato ela parecia melhor: ganhou massa muscular, já não gania, parecia estar tudo bem. Mas eu continuava cabreiro, então pedi que lhe tomassem uma radiografia. Para a surpresa de todos – e nosso desespero -, Luna tinha uma fratura na cabeça do fêmur. Segundo a veterinária, a calcificação ali era muito pouco provável porque essa região é porosa, e também por isso não aguentaria um pino. A solução seria cortar o osso e esperar que se formasse um tecido esponjoso. A cirurgia era relativamente delicada, e a convalescência, sim, um pesadelo: a cachorra, espoleta toda, teria que ficar em repouso sem se mover muito por duas semanas. Para se ter uma ideia da improbabilidade disso acontecer: saio com a Luna todo dia, de manhã e à noite, e ela NUNCA se cansa. É uma energia sem fim: corre mas que bala, pula feito coelho, interage com todo humano, canino, arbóreo ou mineral que encontra no caminho. Mantê-la quieta por 14 dias seria impossível sem sedação, e o risco de machucar a pata e comprometer a recuperação era grande. De qualquer forma, teríamos que esperar alguns meses mais porque Luna era muito pequena ainda para a anestesia.

Dois meses e meio depois, com a pequena já prestes a virar mocinha, chegou a hora de esterilizá-la. Decidimos aproveitar o embalo – e a anestesia e o período de molho – para fazer logo tudo de uma vez: tirar os ovários, o útero e ajeitar também a patinha. Nos exames prévios, nova radiografia e nova surpresa: o osso calcificou sozinho, perfeito, de um jeito que a veterinária disse nunca ter visto e jamais esperaria! Minha filha é praticamente o Wolverine quadrúpede! Não precisa mais operar o fêmur, eba, eba!

Daí que hoje foi só a ovariohisterectomia mesmo. Pela primeira noite nos últimos 4 meses ela dorme fora de casa, tadinha. A essa hora deve estar lá, chorando no meio de muitos outros cachorros, sofrendo dores horríveis, com um cone aterrorizante na cabeça, sentindo-se abandonada e sozinha no mundo. Meu coração em frangalhos, não sei se consigo dormir…

Se bem que a bicha é mutante, se autorregenera. Se duvidar, já deve ter escapado da clínica, recauchutado os miúdos, entrado no cio imediatamente e agora está tocando o terror com toda a cachorrada na rua.

Ou seja: a gente aqui, morto de preocupado com a saúde dela, a conta bancária arrombada (à toa) para que tivesse o melhor tratamento possível, e a safada por aí saciando sua luxúria.

Bitch.

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Happy Bel’s Day!

Três da madrugada, durmo des-mai-a-do no sofá do escritório. Ela joga um copo d’água na minha cara, eu pulo sobressaltado:

– ACORDA! A prova é daqui a pouco e tu tem que me ensinar essa merda de trigonometria!

Isso tem 20 anos, época do pré-vestibular. A gente se reunia na casa dela para estudar pras provas, um grupo de 7 meninas e eu, bendito seja sempre. Bel morava num apartamento bonito e confortável na Aldeota, com 4 suítes e vista pro mar. Filha de médicos, com grana, podia ser muito fresca como outras no colégio. Era não.

Nunca vou esquecer do dia quando a convidei para almoçar em casa, nós ainda na… quê? sexta, sétima série? Saímos da aula, pegamos o ônibus, descemos na Jovita Feitosa e caminhamos debaixo do sol quente. Ana Célia tinha preparado um baião-de-dois, uma carne de sol, e serviu o almoço nos pratos duralex gastos, riscados. Lembro da vergonha que sentia por morar numa casa sem luxo no Parque Araxá. Sorrindo amarelo, repeti a velha frase que vovó dizia com tanta simpatia:

– A casa é simples mas recebe com amor, viu?

Ao que ela, quase me ralhando, respondeu:

– Tu tá me dando um prato de comida! Acha mesmo que eu vou reparar em qualquer coisa? Tenho só é que agradecer!

Ela é minha irmã. Seus irmãos viraram meus irmãos. Seus pais são meus tios lindos. Suas filhas, as sobrinhas amadas do Tio Lêco. Somos todos uma imensa família, feitos da mesma matéria, curtidos na mesma dor e no mesmo riso. Fui buscá-la no aeroporto quando ela voltou da Disney pela primeira vez, cheia de canetas coloridas e adesivos brilhantes na mala. Ela me deu o último abraço quando fui embora para São Paulo. Sequei suas lágrimas nos términos de namoro e nas noites de cólica. Brincamos e nos embebedamos juntos tantas vezes, do Iguape a São Paulo. Chorei de alegria quando ela se formou em Medicina. Fui padrinho no casamento. Estava lá tirando foto quando a Bebela nasceu. Ela acompanhou a cirurgia da minha mãe e, aos prantos e sem condição de falar, escutou seu pai me contar que o câncer era terminal. É muita história. Muita cumplicidade. E a segurança absoluta de que, apesar de qualquer distância ou tempo, temos um ao outro.

Feliz aniversário, feliz vida, Cybele. Te espero em 2015 – a casa ainda é simples, mas continua recebendo com muito, puro e eterno amor.

P.S.: Me controlei e nem falei da tomadinha, viu?

CRUSP, 1997

CRUSP, 1997

Acabou mas tem

Comunicado urgente do condomínio: no dia 04 (vulgo hoje) será feita limpeza na cisterna do prédio e não haverá água a partir das 08 da manhã. Entendido, a gente se programa, tem que fazer manutenção mesmo pela boa saúde da galera, pra não formar aquele lodo nojento nas beiradas da caixa d’água nem juntar Aedes aegypti.

Tratei de me banhar logo, que eu sou muito higiênico, e aproveitei para encher uns baldes (mentira, era um panelão mesmo: o balde quebrou e eu esqueci de comprar outro porque tinha mais o que fazer). Deu 08:30 e saravá, tudo normal, habemus aqua.

Às 09 chega Susana, a faxineira maritaca, e trato logo de avisar:

– Cunhã, avia com a louça que a água vai se acabar! Era pra ter findado mais cedo, então se avexe porque já-já fica sem.

Ao que ela mui suave na nave me responde:

– Tranquilo, joven… somos peruanos, verdad? Si dijeron que se iba a las 8 entonces seguro me alcanza para lavar lo que sea y limpiar toda la casa!

Verdade, Susana, penso. Bora logo dar banho na Luna, encher o açude e aproveitar pra mandar uns carocim d’água pros meus pessoal no Sumpaulo. O deserto é aqui, mas tá faltando é lá…