Keep calm and please be quiet

Nunca fui fã de muita zoada, mas nos últimos anos o que era um incômodo administrável aparentemente vem se transformando numa semente de ódio que sabe Deus que frutos malignos pode dar.

Venho tentando identificar quando foi que essa intolerância aumentou.

Quando era criança adorava um furdunço: lembro dos arrasta-pés na casa do Tio Preto, com Os Negões da Caixa Prego (banda informal dos meus primos) tocando um forró danado até altas horas e eu dançando a noite toda com mamãe, e das festinhas de aniversário ou celebrações de família em que sempre rolava um Ursinho Blaublau, o Homem Primata ou a Alice não escrevendo aquela tal carta de amor pra gente chacoalhar o esqueleto. Achava era bom.

Já adolescente, não perdia um “som” (#éonovo) na casa dos amigos, pumping up the jam até a hora de vencer a timidez quando botavam música lenta de roçar bochecha, na esperança de descolar um cangote cheirando a Giovanna Baby e umas bitocas para depois suspirar construindo meus castelos no ar (eu me apaixonava bem ligeirinho naquela época – quer dizer, talvez isso não tenha mudado muito…).

Na faculdade a vida era uma farra atrás da outra. Não faltava calourada, Culto a Baco, cervejada, FestECA, churrasco, vernissage (inesquecíveis bocas-livres), barzinho, reunião de amigos… tudo embalado por música alta, fuxico, riso solto, aquela muvuca típica de qualquer aglomeração. Lembro até uma vez quando nos juntamos no sítio da Juliana para uma feijoada histórica que terminou durando três dias e rendendo algumas das memórias mais cômicas e impublicáveis da vida. Na primeira noite era Juliana des-maiada por acolá e os bêbo ocupando todas as camas, redes e congêneres que havia na casa: eu, valente e resistente, demorei a cair, e quando finalmente me rendi não tinha mais leito sobrando, daí o jeito foi deitar no sofá que escorava as gigantescas caixas de som que animavam a bagaceira, num volume tão alto que fazia meu moribundo corpo tremer todo. Mesmo assim eu dormi.

Depois de formado fui morar com a Renata, e deve ter sido nessa fase que descobri o valor do silêncio. Ainda gostava de sair, final de semana sempre tinha balada, mas em casa eu tinha que ficar mais quieto porque ela precisava estudar. Nós dividíamos um apê delícia na Vila Madalena, de frente pruma praça também delícia, e toda manhã eu acordava com passarinhos cantando. Gostei daquele bucolismo, assimilei o sossego e encontrei a paz. Comecei a trocar as noitadas por programas mais caseiros – graças à companhia maravilhosa da minha roommate –, e receber pequenos grupos no aconchego do nosso lar de repente me parecia muito mais prazeroso que estar no meio da multidão. Por fim atinei que o alvoroço me desviava do que mais me interessava: as pessoas e suas histórias. Para disfrutar disso, eu, que tenho algum grau de TDA, precisava me concentrar, e qualquer excesso de estímulo me atrapalhava demais.

A raiva do barulho deve ter piorado quando fui morar na Consolação. Minha janela dava pra Augusta, com toda sua agitação e confusão 24×7. Fechava as janelas sempre para poder escutar meu jazzinho, ler ou conversar tranquilo com quem viesse me visitar. Mas o ato de fechar as janelas, simbolicamente, representava um encerramento que em nada combina com meus ideais de liberdade.

E acho que é por isso que amanheci especialmente angustiado hoje (ufa, finalmente chego ao motivo deste post). Nosso apê aqui fica no quarto andar e dá de frente para uma rotatória relativamente movimentada, e, mesmo fechando as janelas – o que, como acabei de explicar, me provoca sensações ruins –, ainda se ouve o pandemônio da rua. O que me desconcentra, desequilibra, me torna ainda mais improdutivo e desfocado. Me atazana o juízo, compromete o humor, enfurece. E eu viro o Walter White de “Breaking Bad”, o William Foster de “Um dia de fúria”, a María Elena de “Vicky, Cristina, Barcelona”. O Taz.

Acho que vou começar a usar tampões de ouvido enquanto não instalamos vidros anti-ruído. Ainda assim, não tem tecla “mute” pro mundo, né? Como lidar com alarmes de carro, bebês chorando em avião (mães, perdoem-me a franqueza), cachorros histéricos, showmícios, aviões, fogos de artifício, a Sofia Vergara? Tá, a Sofia eu amo, gasguita como for, ela pode berrar o quanto quiser.

Mas já vou avisando: se eu não ficar mouco em breve, cuidado comigo. De coroa misófono a velhinho homicida é um pulo. Ou um grito.