Quem não tem pão caça com quê?

Depois de quase dois anos e meio morando fora, aprendi a administrar a falta que sinto de comidas que não encontro com tanta facilidade aqui do outro lado das fronteiras tupiniquins.

Feijoada, por exemplo. Tem, mas não é a mesma coisa. Aqui em Lima já fui a dois restaurantes que servem a iguaria – meu prato preferido, por sinal –, sempre aos sábados, com arroz branco, torresmo, caipirinha, até um pagodão acompanhando. Mas é diferente. O feijão tem outro gosto. A couve-manteiga é substituída por acelga. Não tem paio. Nem linguiça calabresa. E não tem farofa, porque não tem farinha de mandioca. E eu sou cearense, né?, então feijoada sem farofa não é feijoada, dicumê sem farofa não é dicumê, a vida sem farofa é sem graça.

Também tive que aprender a viver sem minha pornfood predileta, a delícia-mor dos meus delírios famélicos vespertinos, o salgado símbolo da brasilidade nagô: a coxinha. Nem falo de acarajé: cedo entendi que só na Bahia para comer um acarajé de respeito. Mas coxinha, poxa, aquela gota de amor brilhando de óleo, com a massa crocante por fora e cremosa por dentro, guardando o precioso tesouro de galinha desfiada com cebola picada, verdinhos miúdos, carinho pra alma e vontade de mais… Por mais que eu goste de empanada – e eu gosto muito, de verdade –, ai, como dói ficar sem coxinha.

Brigadeiro é mole, dá pra fazer em casa. E eu nem sou lá tão fã, prefiro beijinho de coco – que também dá pra fazer em casa, sabendo onde achar coco fresco. Guaraná Antarctica já se vende aqui, assim como panetone Bauducco, biscoito champagne, pão de queijo congelado e, claro, cachaça. Mas não tem requeijão. Nem catupiry. Nem goma pra tapioca. Nem Nescau, minha gente, e eu sou viciado em Nescau. É muita privação pro cristão.

Agora o sofrimento mesmo, o flagelo supremo bate é de manhã cedo, a remela ainda nos olhos, quando levanto para o desjejum. Não todo dia, preciso confessar, mas é uma desolação recorrente. Me acostumei a comer cereal com iogurte, granola, frutas, sucos, café, ovos e tal. E tem meu amado-idolatrado-salve-salve queijo-quente para os dias mais nublados. Até arepas são bem comuns aqui em casa… mas eu sinto falta, tenho crises de abstinência de pão francês. O bom e velho carioquinha, cacetinho, pão de sal, careca, o pãozinho nosso de cada dia. Aquele que se compra de dúzia, ainda quentinho, no saco de papel, na padaria da esquina, sem frescura de nada, para besuntar de manteiga Aviação ou Itacolomy e tacar na chapa quente. E chuchar no café-com-leite. E comer mais um, porque o primeiro nunca é suficiente. Sonho dormindo e acordado com pão francês, juro. Não tem substituto, não tem compensação possível, só tem o desejo. De grávida. Incontrolável, incontornável, desesperador.

Não tem como importar, já pesquisei. A legislação não permite, e a logística necessária obviamente comprometeria a qualidade do produto. E, mesmo que eu fosse um trilhardário passageiro Top Platinum Plus Premium Gourmet de qualquer companhia aérea, seria irracional pegar um avião para saciar minha tão frequente vontade de comer pão francês.

O jeito é aceitar mais essa agrura da escolha de desterrar. Ou… virar padeiro! A globalização tá aí, chegou pra ficar, não é possível que um migrante brasileiro não possa aprender a fazer pão francês numa escola de culinária peruana, né?

Ou convido alguma amiga padeira conterrânea para me visitar e me ensinar, assim mato (a saudade e) dois coelhos com uma sovada só. E aproveito e peço a ela para trazer umas castanhas-de-caju também. E azeite de dendê. E Nescau, muito Nescau. E… tá, parei. Vou ali almoçar minha quínua (mas eu queria mesmo era um carioquinha quentinho, nham!).

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