O que o silêncio encerra

Não percebi que seus olhos são verdes, cristalinos, porque estavam sempre apontando ao chão. Não sabia como era sua voz, mal havia falado na primeira vez que nos encontramos – mesmo que eu lhe tivesse dirigido palavra em mais de uma ocasião. Sou de integrar, e afinal somos um time, trabalharemos juntos, quero não só conhecer cada um como espero que todo mundo se achegue, pelo bem do nosso propósito enquanto equipe.

Tímido, se disse. Músico, estrangeiro como eu. Muito alto, muito magro, muito bonito, tipo modelo. No canto, enquanto os outros se enturmavam com a estridência típica à sua juventude. Tentei trazê-lo, puxei assunto, brinquei com sua mudez, a gente riu – ele, quase não. Se continha, não estava à vontade ali, imagino que não esteja à vontade em alguns outros lugares ou circunstâncias também.

Não sei muito dele além do que já mencionei. Só sei mais que é gay. E talvez por isso seja tímido. Talvez por isso não se integre tão facilmente quanto os demais. Talvez por isso prefira baixar a cabeça em vez de encarar as pessoas. Baixar a cabeça, que simbólico. Se permitir ser submetido, não resistir. Aceitar, ainda que não seja aceito – ou, talvez, por isso.

Nesse mundo com tanta voz, com tanto grito, tantos ainda se calam. Muitos são realmente retraídos, reservados, não gostam mesmo de aparecer. Mas há os que têm medo, eu sei. Os que se fecham porque não querem ser julgados, porque não querem se justificar, não querem sentir-se mal por simplesmente ser quem são.

Pode ser acanhamento, só. Ou pode ser uma triste, solitária prisão.

Conexão Lima – Oz

Depois de anos, muitos anos, uma prima amada me manda uma mensagem dizendo que vem por aqui. Nos reencontramos, nos adicionamos às agendas e, em minutos, nos reintegramos às vidas um do outro. Back home, como se nunca tivesse sido longe. Nunca foi, talvez: apenas esteve. E outros poucos minutos depois, seu irmão, meu também primo, meu também amado, de repente de volta à minha vida e eu de volta à sua. Como se nunca houvesse deixado de. Como se sempre. Porque sólido, porque fogo – porque sempre, afinal. Ela me enviou seu prematuro roteiro de viagem que começa e termina pelo Peru, ansiando por me ver. Ele, orgulhoso, mostrou os cachorros e a casa nova. Eu, que num restaurante esperava a amiga de décadas e seu marido e mais duas novidades, tratava de controlar as lágrimas, pois homem não chora, me ensinou vovó. Mas eu queria mesmo era chorar, queria mais era voltar 20 anos no tempo e cantar aquelas músicas dos Mamonas com meus primos meninos, trepar na jabuticabeira do seu quintal, jogar videogame com eles. Quanto vento soprou desde aquele então. Já não somos crianças, agora temos contas e bebemos vinho e viajamos sozinhos pelo mundo. Viramos a gente grande de quem nos ríamos nos churrascos da família.

Mas preservamos a cumplicidade conquistada, ou melhor, construída. Muito mudou, é verdade, só que debaixo de tantas camadas ainda nos reconhecemos, e nos sabemos, e nos queremos. Me pego vendo suas fotos publicadas em redes sociais e lamento não estar nelas. Reviso as minhas fotos guardadas no computador, e meu coração aperta ao não encontrar registro desse período tão importante e precioso. Sinto saudades do que a gente viveu e do que a gente podia ter vivido. Penso, ansioso e contente, nos lugares que vou mostrar à minha prima, no vinho que vamos tomar, nas risadas que vamos compartilhar. E nas muitas, muitas fotos que vamos tirar.

Seja bem-vinda a Lima, prima. E muito bem-vinda, uma vez mais, à minha vida.

Sujeira, culpa e chibata

Estou cansado de viver sob a sombra de uma chibata moralista que me espreita pronta para açoitar impiedosamente. Estou cansado dos juízos simplistas, dos dedos apontados, das culpas.

Há poucas semanas a presidenta do Brasil lembrou, num debate, o incidente em que o candidato Aécio Neves, então senador, foi parado em uma blitz e se recusou a fazer o teste do bafômetro. Tinha a carteira de habilitação vencida e supostamente dirigia embriagado. Claro está, coberto de erros: cometeu pelo menos duas infrações gravíssimas segundo o código de trânsito e, se ia de fato bêbado, pôs vidas em risco. O que mais me chocou no caso, entretanto, foi a onda – o tsunami, melhor – de julgamentos morais, a quantidade de comentários que li sobre uma alegada improbidade atribuída ao sujeito não por causa de seus feitos ou desfeitos políticos, mas por sua conduta pessoal, como cidadão. De repente uma multidão de paladinos dos bons costumes (seria a tal “gente do bem”?) encorpou um discurso que o execrava como se o próprio tinhoso fosse, por sua falha tão humana quanto comum. Porque guarde a primeira pedra – já há suficientes voando por aí – quem nunca se entorpeceu ou não tem um chegado que o tenha feito, usando drogas lícitas ou não, com propósitos espúrios ou por ingênua diversão. Eu mesmo já dirigi alcoolizado, digo sem nenhum orgulho, e conheço muita gente que até hoje dirige. Gente muito “do bem”, inclusive, mas que também se apressa em julgar quando lhe convém. Como muito bem definiu um amigo uma vez: “Fantasia é o que eu faço entre quatro paredes sem ninguém saber; imoralidade é a mesma coisa, mas quando o outro faz e se torna público”. Ou seja, a sua imundície me ofende, mas a sujeira que fica no meu umbigo está permitida, já que eu não vejo – nem quero ver.

Outro dia foi a caça às bruxas com o povo nu em Porto Alegre. Pessoas que encontraram na nudez sua forma de protesto, já que a sociedade parece se chocar tanto com corpos expostos na rua – mas na novela das 9 pode cena de sexo (beijo gay, não), nos comerciais de cerveja pode mulher pelada, no carnaval e no futebol e na festa infantil que toca funk proibidão também pode. Sim, pode mesmo. Tem que poder. É pele, meu povo. É pescoço, braço, peito, bunda, piroca, xereca, cabelo, sovaco, nada que seja tanta novidade assim. Mas, de novo, não faltam censores para criticar a exposição – ou a liberdade – alheia.

Agora é esse papo do aborto. É um tema sério, importantíssimo, que precisa ser discutido a fundo e que necessita de novos entendimentos e caminhos no Brasil. Há muitas nuances, alguma ética e um sem número de argumentos para cada situação: os cenários são múltiplos, aliás são absolutamente particulares, e as decisões deveriam, sim, ser mais subjetivas (no sentido de pessoais). Mas é outro assunto espinhoso, que resgata uns tais valores confundidos com transcendência que justificam críticas condenatórias perigosamente massificadas. Como no caso dos indiciados pelo “apoio moral” à moça Jandira, que morreu ao tentar fazer um aborto clandestino. Ora, não vou fazer confissões nem expor ninguém, – e mesmo ao não fazê-las já deixo clara minha inclinação. Mas penso que a mulher tem que ser consciente e soberana para fazer suas escolhas, inclusive quanto à interrupção da gravidez. Tenho muitas amigas mães, acompanhei muitos dramas, de perto até. Sei que a maternidade enleva e realiza, mas também sei o quão desafiadora e torturante ela pode ser. Foro íntimo é o que eu defendo. E respeito à diferença de opiniões e às escolhas do outro.

Culpa é uma semente de ódio que metem na nossa cabeça desde muito cedo, e apontar dedos é regar esse ódio. Em vez de cuidar das vidas alheias, cuidemos de manter os nossos umbigos limpos. Ou aceitemos essa sujeira deles, lembrando que ela não é melhor nem pior que nenhuma outra.

Vem ni mim, 2013

Nos últimos dias de dezembro vi muita gente pedindo que o ano acabasse logo, dizendo que 2012 foi difícil, ruim, apocalíptico, coisa e tal. Resolvi fazer uma retrospectiva de memória – e a minha é um horror, mas é a única que tenho – e percebi que meu ano foi mais ou menos assim:

Começou na companhia de gente muito especial: amor, irmãos e amigos queridíssimos com quem brindei a chegada do ano no aconchego do lar, que é meu porto seguro, meu santuário. Não podia ter largada melhor.

Fiz muito amor, muito sexo bom, algum sexo nem tão bom (que serviu para calibrar a régua, afinal). Conheci uma princesa que me encantou e me fez lembrar de outros tempos. Vi uma história feliz chegar ao fim e tive que fazer um amor se transformar. Estive solteiro e voltei a brincar feito adolescente – mas agora já com a segurança e o traquejo dos trinta e tantos. Me apaixonei uma, duas, três, muitas vezes, em casa, na rua, na praia, no Louvre, na fila de embarque, na fila da farmácia, em toda parte. Sofri um pouquinho por quem não merecia, mas lembrei que gosto mais de mim, levantei a cabeça e segui.

Passei por 27 e por 39 anos. Me comportei como se tivesse 12, pensei com maturidade, senti atemporalmente. Vi rugas novas aparecerem, mas as linhas de expressão mais marcantes são os pés de galinha nos cantos dos olhos – e me alegra saber que eles vêm dos muitos sorrisos que tomaram minha cara e das muitas gargalhadas que me inundaram o espírito.

Viajei um bocado. Fui passar calor em casa, visitei uns desterrados, conheci lugares incríveis acompanhado de umas boas almas gêmeas. Voltei ao Rio depois de tantos anos para constatar que, sim, ele continua lindo. Brinquei de rico na Côte d’Azur, fiz pic-nic debaixo da Torre Eiffel, me perdi nos canais de Amsterdã, me encontrei nas alturas de Berlim, tomei banho de chuva em Machu Picchu, quase morri de queda – ou do coração – em Pisac. Comi tudo, bebi tudo, engordei, emagreci… desfrutei, enfim, como bom hedonista que sou.

Tive a imensa honra de acompanhar o nascimento da Belinha em Fortaleza e do Pedrisco em São Paulo. Meus mais novos e fofos sobrinhos, a quem amo tanto quanto a seus pais, meus irmãos de coração. Prestigiei aniversários divertidíssimos e bodas inesquecíveis – com passistas brasileiras e irish dancers, com porres homéricos e vexames oníricos. Conheci gente do mundo todo e reconheci pares de outras eras. Mudei de país para aprender um novo idioma e para apostar num romance. Celebrei encontros e despedidas, com a certeza de que eles fazem parte dessa grande novela que é a vida.

Trabalhei muito também. Virei noite, aprendi coisas novas, me reciclei. Ensinei bastante, formei profissionais, deixei um legado. E tomei a importante decisão de abrir mão do meu bom emprego para buscar outras verdades. Não consigo descrever a liberdade que senti quando finalmente me dei conta de que estava apenas repetindo uma rotina sem sentido, contando as horas de segunda a sexta-feira para que chegasse o final de semana, contando os meses faltantes para as férias. Me lancei no escuro, mergulhei num imenso mar azul de incertezas, mas estou tranquilo porque sei que posso fazer o que quiser. E, claro, estou preparado para colher os bônus e pagar os ônus que vierem com as minhas escolhas.

O balanço de 2012 é esse. Foi um ano maravilhoso, sim! Morreram a Hebe, Dona Canô, Chico Anysio, Joelmir Beting, Hobsbawn, Millôr, Wando, Whitney, até o incansável Niemeyer. E muitos outros menos famosos que também farão falta. Mas o mundo não acabou. Chegamos a 2013 com fé reciclada e esperança de um novo tempo, outra coragem, mais conquistas. No meu ponto de vista, o ano que passou e este que inicia, como metonímias da vida em si, são não apenas o que fizemos ou faremos deles, mas, principalmente, o olhar que lhes resolvermos lançar. Tive meus maus momentos, claro. Minhas dores, minhas dúvidas, meus descompassos. E eles existirão sempre, até para que eu possa dar mais valor ao que acontecer de bom. Mas escolho guardar no meu HD (que tem o espaço de um disquete, mais ou menos) as melhores lembranças, os motivos que me fizeram ganhar aqueles pés de galinha nos cantos dos olhos, para acreditar que o tempo está passando e eu estou APROVEITANDO MUITO!

E é isso que desejo a você, que gastou seu precioso tempo lendo minha divagação até aqui. Viva muito em 2013, curta cada minuto, passe bem com os teus. Goze, brinque, coma, durma, corra, sonhe, viaje, faça planos. Bote em prática as promessas de ano novo, mas não se culpe por abrir mão de algumas delas. Lembre-se dos sorrisos que brotarem no teu rosto e nos rostos de quem você ama, e por eles sorria mais. O mundo sorri de volta, tenha certeza.

Feliz 2013! Logo, logo, estamos juntos por aí!

(texto de 02/01/2013)

De repente, 35

Quando eu era pequeno, achava que 35 era idade de gente velha. Era quando as pessoas já tinham carro, fediam a cigarro, estavam casadas, com filhos, cheias de contas, rugas e cabelos brancos. Repetiam conversas sérias acerca dos mesmos assuntos chatos, jogavam baralho e viviam preocupadas e/ou reclamando, com suas opiniões formadas sobre tudo e seus julgamentos prontos, inclementes e infalíveis.

Minha mãe, não. Fatoca tinha um fusquinha e fumava, é verdade, mas era impetuosa e cheia de energia: saía pra balada, ria alto, resolvia viajar da noite pro dia… Se jogava na vida. E eu achava o máximo, claro.

Hoje, amanheço com os meus próprios 35 anos completos (e mais um dia, vá). Sou pedestre e antitabagista convicto, solteiro e recém desempregado por opção. De filhas, só minhas plantas. Tenho contas, mas todas elas solvíveis no curto prazo. Tenho rugas, mais por tanto sorrir que por qualquer preocupação ou tristeza. Tenho cabelos brancos – e pelos ornando, por todo canto, ai – que já aceito como beleza da idade, e não me faltam aprovações a eles, felizmente. Adoro um papo sério, mas as bobeiras estão na agenda de todo dia pra garantir a sustentável leveza do ser. Jogo baralho, jogo conversa, jogo charme. Me julgo suficientemente sábio para declarar que minhas opiniões são passíveis de revisão – e serão sempre, bastando, para isso, argumentação razoável e respeito mútuo. Saio pra balada, gosto de rir muito e alto, viajo, viajo, viajo.

Ainda sou pequeno, as pernas resolveram não esticar tanto… mas sou um grande homem. Grande porque penso, grande porque faço, grande porque amo. E recebo muito amor, motivo da minha imensa e irrefreável alegria de viver.

Cheguei aos 35, e os 35 me chegaram com uma cara e umas cores que eu não imaginava em outro tempo. Mas, vou te contar, tá bom DEMAIS assim!

(texto de 10/09/2012)

CHUÁ, CHUÁ!

Ainda é janeiro, ainda é começo de ano, então vou fazer de conta que o atraso nem é tanto, porque a vontade de mandar uns votos para o ano novo finalmente arranjou espaço para acontecer.

Ho, ho, ho! Passou o Natal, entrou 2006, e nós estamos de volta ao lar, ao batente, aos “mesmos”, a tudo. Ou melhor, não voltamos: chegamos de novo.

No avião de Fortaleza para cá eu vinha pensando: “voltar”, no sentido de “retornar”, não cabe a isso que a gente faz quando acabam as férias, quando retomamos a rotina. As pessoas são rios, digo sempre. E, como eles, não voltamos, não retrocedemos: nossas águas são sempre outras. A empresa hoje já está um pouco diferente do que era uma semana atrás. A dinâmica do trabalho mudou – pouquinho, mas mudou. Os vizinhos de mesa têm outras caras, trocaram de óculos, renovaram o cabelo, apostaram em um visual mais arrojado ou meio retrô. A política mudou, a economia mudou, o sonho mudou.

Eu também mudei: nesse final de ano viajei, desentalei uns nós na goela com mamãe, reencontrei muita gente doutros tempos, dancei tango com a Beth Goulart, apresentei minha cidade, redescobri alguns prazeres, pisei na bola, marquei pontos, amei e desarmei. Não refleti tanto quanto de hábito, não fiz planos, não prometi nada. Deixei fluir. Feito água. E estou de novo aqui, agora.
Essa foi a primeira resolução no ano: não voltar, mas re-chegar. Com outros olhos, outro ânimo, outra energia. Se o mundo parece não mudar, então mudo eu. Se não dá para mudar as coisas, então mude você. E deixe correr.
Nós somos cachoeira demais para juntar mosquito de dengue.

Em 2006, as águas vão rolar.

Pras garrafas cheias, muitos brindes: a nós!

(texto de 02/02/2006)

O cookie é uma delícia!

Último dia de 2002, hora de fazer a retrospectiva.
Esse ano não foi fácil. Várias previsões não se concretizaram. Alguns sonhos, pra variar, tiveram de ser adiados. Verdades duras chegaram como tapas, fazendo a gente baixar a cabeça e chorar. Mas teve muito de bom também. Falando por mim, o melhor de 2002 foi ter aprendido muito. Aprendi sobre quem eu sou, sobre as pessoas que amo, sobre a importância das coisas. Se não tive grandes eventos para lembrar, agradeço a Deus por ter encontrado felicidade no que parece pouco, pequeno, “simples”.
Sabe uma das coisas que mais me deixaram feliz em 2002? Foram os cookies que a Renata fez. Para quem não sabe, eu e a Rê moramos juntos desde abril de 2001,
dividindo um apartamento, duas ou três cervejas, meia dúzia de dúvidas e infinitos sonhos e desejos. Ela faz cookies famosos – sabe do que falo quem já teve o
inenarrável prazer de experimentá-los! E eu, metido e já pedindo desculpas por revelar tal segredo, divido aqui um presente com gente que eu quero ver sorrindo em 2003.
Talvez a gente não descubra a cura de muitos males, talvez a gente não acerte na Sena nem encontre os grandes amores das nossas vidas. Talvez falte o trabalho perfeito, talvez a distância atrapalhe, talvez a gente não acompanhe o atropelo do tempo.
Mas talvez isso tudo seja a chance de aprendermos, de encontrarmos novas perspectivas, de crescermos. Talvez sim, pra tudo, né?
Não tenho receita de felicidade, nem tenho essa pretensão. Só tenho uma receita de cookies doces, quentes e deliciosos, com chocolate derretendo pela
boca, pra liberar rios de serotonina no sangue quando a música da vida estiver meio chata.
A quem eu não encontrar em breve, mando beijos, abraços, amassos, um tanto da melhor energia que eu tenho!
Carpe Diem, mais do que sempre!

(texto de 31/12/2002)