Cadimia, dia 5: pernas.

Hoje foi dia de trabalhar gastrocnêmios, gastrocsímios, soleares, luneares, estreleares, adutores, quadríceps, quadrúpedes, sartórios, sanatórios, glúteos máximos, mínimos e mais ou menos, ou seja, tudo o que tinha e o que não tinha pra baixo da pelve.

Não sei quando volto a caminhar direito, mas acho que tá dando resultado. No final eu olhava no espelho e já me via assim:

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ACORDA, ALICE!

Ontem foi feriado em Lima e, como sempre que há uma pausa assim, intervalando a semana, aproveitei para dormir. Dormi pesado, profundo, de roncar alto e sonhar longe. No adiantado do sono, caí numa toca de coelho e vivi uma das experiências mais doidas da minha vida. Não lembro direito, sou péssimo com essa coisa de sonho, mas vou tentar contar.

Recebíamos um convite para visitar as Lomas de Lachay, um oásis que enverdece por 4 meses no ano em meio a um deserto graças a uma conjunção climática que proporciona nevoeiros bem densos de julho a outubro. Com a umidade, as plantas florescem, as árvores secas revivem, e uma peculiar fauna local dá as caras. É um ecossistema ímpar, uma espécie de Shangri-La guardado no Peru.

Pegávamos um ônibus de excursão com mais três amigos, todos animados e curiosos. Um deles tinha levado um bolo de chocolate (creio que li um “eat me” na cobertura), fazendo nossa alegria enquanto a viagem transcorria tranquila, cruzando os areais de Ancón e Huaral, com suas belas e intermináveis dunas. Finalmente saíamos da rodovia, nos metíamos por uma estrada de terra, e, em poucos minutos, a paisagem mudava: uma grama, a princípio bem tímida, se ia encorpando e ganhando altura, e logo havia arbustos, flores, uns esparsos pés de planta aqui e acolá. Baixávamos, seguíamos a guia, nos familiarizávamos com o parque antes de enveredar por suas trilhas. Aí começava a aventura.

Visitamos um mirador, depois outro, nos enchemos de coragem e tomamos umas fotos valentes. Vimos insetos gigantes, colinas verdejantes, olhos d’água perdidos no caminho. Lá pelas tantas, Jorge me oferece uma chocoteja, um doce típico daqui que consiste em um camafeu de chocolate amargo recheado de manjar branco e noz-pecã. Adoro chocotejas, sempre levo aos amigos quando vou ao Brasil. Mas essa era especial: logo na primeira mordida, senti um calor na boca que se estendeu à garganta, descobriu o peito, amornou o coração. Que delícia! Dei outra mordida e tratei de saborear mais, sentir cada diminuto pedaço, como se aqueles minúsculos grãos fossem galáxias inteiras de sabor, microscópicos corpos celestes cheios de particularidades e desafios que eu mal conseguia elaborar enquanto os esmiuçava com a ponta da língua. Não sei por quanto tempo travei essa batalha orgásmica com a tal meia chocoteja, mas depois disso percebi que meus sentidos todos estavam mais aguçados: eu podia escutar cada som da natureza e do homem, desde o bater de lepidópteras asas até o cochicho viperino das chinesas canibais que nos espreitavam; sentia o cheiro fresco das moléculas em suspensão no ar, tragava seu perfume, tentava comê-las; passava os dedos sobre a pele dos meu braços e me arrepiava inteiro com o orvalho brilhante que se acumulava sobre os meus pelos. E as cores, meu Deus, as cores! Era como se meus óculos tivessem lentes LED capazes de decodificar todas as 16 milhões de cores e projetar tudo em não três, mas quatro ou cinco dimensões. Eu tinha meu próprio olho de Thundera e a visão além do alcance: hou-hou-HOOOOOU! Pegava os objetos e tateava seu corpo, adivinhava a porosidade de sua superfície, descobria as diferentes temperaturas de cada matéria. As pontas dos meus dedos tinham infinitas terminações nervosas: eu me sentia uma estrela-do-mar superestimulada. Era tanta informação que me escapavam uns gemidos enquanto caminhava, embevecido com esse universo novo, intenso, deleitoso. La-lalá, what a beautiful combination sending shivers up and down my spine, a música do Erasure ressoava na minha cabeça, acho que até cantava junto, às vezes parava pra dançar uns passinhos, bem discretamente para que os outros não achassem esquisito. Mas devo ter dado bandeira, a moça dos cabelos brancos percebeu! E me olhou, com seus olhos inquisidores. E deve ter comentado com a mãe, que num átimo voltou a cabeça na minha direção, me julgou e condenou ao fogo do inferno. E então eram muitos olhos, uns olhos redondos, estáticos, todos em mim. Eu queria gargalhar, tudo era tão engraçado, mas por todo lado havia corujas famintas vigiando. Me recolhi, controlei, parei de rir – o que custou muito, porque uma das amigas havia caído quando tentava sentar no que parecia ser o trono de Galadriel, disparando as gaitadas –, introjetei e voltei a admirar a natureza. Estava lá, absorto na esmeraldina imensidão das folhas, quando observo uma forma pitoresca. Ele tratava de manter-se imóvel, mas eu já descobrira seu disfarce: um ent de galhos robustos, fugido da Terra Média, daqueles que lutaram ao lado dos elfos e dos hobbits contra as forças de Saruman. Estava lá, eu vi, e não estava sozinho. Estabelecemos um diálogo silencioso, escutei seus planos de proteção deste novo lar. Compartilhei seu íntimo segredo, dei uma piscadela cúmplice e segui minha jornada, sabendo que ele também tinha uma missão a cumprir.

Alcançamos o ponto de encontro, onde os outros humanos nos esperavam. Fui ao banheiro desaguar, mal sabendo que ali teria um contato imediato de sei lá que grau: o retrete, na verdade, era um buraco no chão, que me falou em uma língua morta há milênios e ameaçou cuspir sua lava se eu não saísse correndo. Escapei, alertei os outros que não fossem lá, subi no ônibus e sentei. O relógio teimava em procrastinar, e do lado de fora mais olhos, mais olhos. Dormi (no sonho). O ônibus seguiu até nossa próxima parada, um castelo medieval à beira-mar no povoado de Chancay. Acordei (no sonho), ansioso por ver as ruínas mágicas e, quem sabe, bater um papo com Merlin se ele estivesse de bobeira. Mas nesse momento devo ter alucinado, porque de repente vi uma bilheteria, um velhinho vendendo algodão doce, crianças pulando num jacaré inflável, palhaços montados em pernas de pau, bailarinas exóticas requebrando ao som de reggaeton e, ao fundo, paredes de tijolos falsos no que parecia ser um palácio bem cafona armado com peças Lego. Perambulamos por esse recinto, evitando as filas de zumbis, até que encontramos uma proa de navio de pirata, na qual quis reproduzir a clássica cena de Rose De Witt Bukater e Jack Dawson em Titanic, mas nem Jorge animou nem a multidão interrompeu a fúria das selfies para que eu pudesse lograr meu intento. Subi à mais alta torre do castelo de Lego, olhei o horizonte e me comuniquei com o oceano. Vi o céu, vi o mar, vi além. Lembrei das moléculas cheirosas que não conseguia comer e me fartei mesmo foi com uns alfajores lambuzados de coisa doce. Senti uma molezinha, joguei uma moeda no poço dos desejos (ainda penso que aquele balde era de isopor) e fui me aninhar no ônibus.

Dormi (no sonho) e acordei, por fim, do sonho. Atordoado, destrambelhado, sem conseguir diferenciar realidade e matrix. Mas com um sentimento incrível de regozijo, um elã único, pura joie de vivre.

Pra minha tristeza não tinha do bolo chocolate em casa. Mas tinha chocoteja.

Delícia de feriado. Quero mais.

See I gotta work it out

Resisti o quanto pude: enrolei, pesquisei, desconversei, fiz uma aula de teste, desisti, sumi, reconsiderei, topei e hoje tive meu debut na academia, com personal trainer e tudo. A idade exige. As juntas doem, a bunda tá aguada, não tenho músculos e quase infarto se corro 100 metros: tava na hora de cuidar do corpo. Assim, deixei de lado toda minha resistência e desafeto pela coisa, me inscrevi e fui.

Pus o despertador pras 6h, mas deixei o celular no silencioso (o subconsciente lutando?) e acordei por sorte (sorte?) às 6:48h, ou seja, tive 12 minutos para: fazer o xixi e a toalete básica, limpar cocô da Luna, tomar água, comer meia maçã, botar shortinho curtinho, camiseta de tecido “respirável” e tênis combinandinho e checar à cadimia para encontrar o instrutor, que me esperava cheio daquela energia típica de quem levanta às 5 da manhã, corre 10km e desjejua um delicioso shake de whey com sua albumínica omelete de 8 claras de ovos.

Cheguei já suado, os olhos remelentos, apreensivo mas certo de que, sendo o primeiro dia, a parada seria mais light. Não podia estar mais enganado: o tal do personal, com seu sorriso escancarado, é um sádico treinado nas trincheiras do Ceilão. Começou com exercício pros ombros, agachado, levantando dois halteres de 10 kg, três séries de doze repetições, intercalando com prancha “pra fortalecer os glúteos e o abdome” e uma coisa que não sei nem explicar, de tão horrorosa: eu ficava pendurado numas alças, apoiando os pés no chão, inclinado a 45o e tendo que levantar o corpo com a força (que força?) dos braços. E essa foi só a PRIMEIRA sequencia.

Depois, alternei rosca martelo, extensão de tríceps e abdominais. Eu lá, na maior dificuldade do mundo pra levantar uns pesinhos menores que a minha nécessaire de viagem, enquanto umas mocinhas magrelas e maquiadas conversavam alegres e satisfeitas enquanto puxavam 40, 50 kg. Um dia, quem sabe, pensei.

Logo me baixou a pressão: comecei a suar frio, a respiração agitada, os olhos meio turvos. “Não comeu nada antes de vir?”, perguntou meu algoz, ao que mentalmente respondi: “Meia maçã lá é comida, seu carrasco peidão???”, tratando de me manter desperto e não passar mais vergonha. Parei uns dois minutos até o sangue voltar pra cabeça e segui no martírio: mais ombro, mais bíceps, mais tortura. Ao final, o instrutor levou minha carcaça até um prato vibratório, com a promessa de soltar os músculos “pra relaxar”. De fato, no começo era o céu: o troço tremia tudo, e eu só tinha que ficar parado sem fazer nada, uma beleza de massagem. Mas aí ele aumentou a frequência e disse para soltar as mãos e me equilibrar, e de repente era um terremoto de uns 7 graus me chacoalhando até os miolos, um horror. Saí moído, aterrorizado, com a certeza de que amanhã não levanto nem as pálpebras. Mas não tenho escapatória: às 7 da madrugada Chris, o impiedoso, já estará pronto para me deixar com o físico do Joe Manganiello. Se sobreviver, eu chego lá.