Quando o sujo bater na janela do meu quarto…

Em Lima não chove: moro há dois anos aqui e, nesse período, só duas vezes vi garoar um pouco mais forte – chuvinha, chuvisco, daquelas que molham um pouquinho sem encharcar. Aguaceiro mesmo, tipo tempestade tropical, nunca. Trovão de meter medo, relâmpago cortando o céu, granizo como cai no Brasil, nem pensar.

Daí que, como São Pedro não chora por essas bandas, a cidade não toma banho. Se asseia, no máximo, com o incansável trabalho das equipes de limpeza urbana, mas não tem jeito – Lima está sempre encardida. A frota de veículos velhos emite gases e resíduos que, aliados às condições climáticas e de relevo locais, criam uma estufa de fuligem em suspensão, tanto que a capital peruana já foi considerada a mais poluída da América Latina. Some-se a isso a umidade absurda em Miraflores, que no inverno chega à incrível taxa de 99%, e temos “la mugre”, essa imundície preguenta que cobre tudo e todos o tempo inteiro. Um pesadelo para um virginiano com TOC.

Em casa temos uma abençoada e preciosa faxineira que diariamente varre, espana, aspira, lava, com razoável capricho, e ainda assim, se ao fim da tarde passo o dedo nos móveis, ele sai preto. Imaginem, então, como ficam as janelas, fechadas durante a maior parte do dia justamente para bloquear a entrada da sujeira, que nelas se deposita simbioticamente. A cada duas semanas preciso remover todas os vidros das esquadrias para que sejam devidamente higienizadas e a gente possa voltar a ver o que acontece no mundo lá fora. E É UM INFEEEEEEEEEERNO, porque as porcarias das lâminas até que saem com certa facilidade, mas na hora de botar de volta, não sei, parece que elas crescem, engordam, ou simplesmente teimam de não querer voltar das férias e resolvem NÃO ENTRAR NUNCA MAAAAAAAAAAAAIS, ESSAS BOOOOOSTASSSSS! Como se não bastasse a dor nas costas pelo peso e o medo de derrubar tudo nos carros da garagem ou, pior, nas pessoas passando lá embaixo, ainda tenho que administrar o estresse de não conseguir meter os vidros nos seus respectivos lugares.

Agora tô aqui suado feito dançarino de lambada, exausto, com uma janela meio encaixada e emperrada, não sai do canto de jeito nenhum. E o pior: metade aberta, para deixar a poluição toda entrar. AAAAAARGH!

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Quem não tem pão caça com quê?

Depois de quase dois anos e meio morando fora, aprendi a administrar a falta que sinto de comidas que não encontro com tanta facilidade aqui do outro lado das fronteiras tupiniquins.

Feijoada, por exemplo. Tem, mas não é a mesma coisa. Aqui em Lima já fui a dois restaurantes que servem a iguaria – meu prato preferido, por sinal –, sempre aos sábados, com arroz branco, torresmo, caipirinha, até um pagodão acompanhando. Mas é diferente. O feijão tem outro gosto. A couve-manteiga é substituída por acelga. Não tem paio. Nem linguiça calabresa. E não tem farofa, porque não tem farinha de mandioca. E eu sou cearense, né?, então feijoada sem farofa não é feijoada, dicumê sem farofa não é dicumê, a vida sem farofa é sem graça.

Também tive que aprender a viver sem minha pornfood predileta, a delícia-mor dos meus delírios famélicos vespertinos, o salgado símbolo da brasilidade nagô: a coxinha. Nem falo de acarajé: cedo entendi que só na Bahia para comer um acarajé de respeito. Mas coxinha, poxa, aquela gota de amor brilhando de óleo, com a massa crocante por fora e cremosa por dentro, guardando o precioso tesouro de galinha desfiada com cebola picada, verdinhos miúdos, carinho pra alma e vontade de mais… Por mais que eu goste de empanada – e eu gosto muito, de verdade –, ai, como dói ficar sem coxinha.

Brigadeiro é mole, dá pra fazer em casa. E eu nem sou lá tão fã, prefiro beijinho de coco – que também dá pra fazer em casa, sabendo onde achar coco fresco. Guaraná Antarctica já se vende aqui, assim como panetone Bauducco, biscoito champagne, pão de queijo congelado e, claro, cachaça. Mas não tem requeijão. Nem catupiry. Nem goma pra tapioca. Nem Nescau, minha gente, e eu sou viciado em Nescau. É muita privação pro cristão.

Agora o sofrimento mesmo, o flagelo supremo bate é de manhã cedo, a remela ainda nos olhos, quando levanto para o desjejum. Não todo dia, preciso confessar, mas é uma desolação recorrente. Me acostumei a comer cereal com iogurte, granola, frutas, sucos, café, ovos e tal. E tem meu amado-idolatrado-salve-salve queijo-quente para os dias mais nublados. Até arepas são bem comuns aqui em casa… mas eu sinto falta, tenho crises de abstinência de pão francês. O bom e velho carioquinha, cacetinho, pão de sal, careca, o pãozinho nosso de cada dia. Aquele que se compra de dúzia, ainda quentinho, no saco de papel, na padaria da esquina, sem frescura de nada, para besuntar de manteiga Aviação ou Itacolomy e tacar na chapa quente. E chuchar no café-com-leite. E comer mais um, porque o primeiro nunca é suficiente. Sonho dormindo e acordado com pão francês, juro. Não tem substituto, não tem compensação possível, só tem o desejo. De grávida. Incontrolável, incontornável, desesperador.

Não tem como importar, já pesquisei. A legislação não permite, e a logística necessária obviamente comprometeria a qualidade do produto. E, mesmo que eu fosse um trilhardário passageiro Top Platinum Plus Premium Gourmet de qualquer companhia aérea, seria irracional pegar um avião para saciar minha tão frequente vontade de comer pão francês.

O jeito é aceitar mais essa agrura da escolha de desterrar. Ou… virar padeiro! A globalização tá aí, chegou pra ficar, não é possível que um migrante brasileiro não possa aprender a fazer pão francês numa escola de culinária peruana, né?

Ou convido alguma amiga padeira conterrânea para me visitar e me ensinar, assim mato (a saudade e) dois coelhos com uma sovada só. E aproveito e peço a ela para trazer umas castanhas-de-caju também. E azeite de dendê. E Nescau, muito Nescau. E… tá, parei. Vou ali almoçar minha quínua (mas eu queria mesmo era um carioquinha quentinho, nham!).

Keep calm and please be quiet

Nunca fui fã de muita zoada, mas nos últimos anos o que era um incômodo administrável aparentemente vem se transformando numa semente de ódio que sabe Deus que frutos malignos pode dar.

Venho tentando identificar quando foi que essa intolerância aumentou.

Quando era criança adorava um furdunço: lembro dos arrasta-pés na casa do Tio Preto, com Os Negões da Caixa Prego (banda informal dos meus primos) tocando um forró danado até altas horas e eu dançando a noite toda com mamãe, e das festinhas de aniversário ou celebrações de família em que sempre rolava um Ursinho Blaublau, o Homem Primata ou a Alice não escrevendo aquela tal carta de amor pra gente chacoalhar o esqueleto. Achava era bom.

Já adolescente, não perdia um “som” (#éonovo) na casa dos amigos, pumping up the jam até a hora de vencer a timidez quando botavam música lenta de roçar bochecha, na esperança de descolar um cangote cheirando a Giovanna Baby e umas bitocas para depois suspirar construindo meus castelos no ar (eu me apaixonava bem ligeirinho naquela época – quer dizer, talvez isso não tenha mudado muito…).

Na faculdade a vida era uma farra atrás da outra. Não faltava calourada, Culto a Baco, cervejada, FestECA, churrasco, vernissage (inesquecíveis bocas-livres), barzinho, reunião de amigos… tudo embalado por música alta, fuxico, riso solto, aquela muvuca típica de qualquer aglomeração. Lembro até uma vez quando nos juntamos no sítio da Juliana para uma feijoada histórica que terminou durando três dias e rendendo algumas das memórias mais cômicas e impublicáveis da vida. Na primeira noite era Juliana des-maiada por acolá e os bêbo ocupando todas as camas, redes e congêneres que havia na casa: eu, valente e resistente, demorei a cair, e quando finalmente me rendi não tinha mais leito sobrando, daí o jeito foi deitar no sofá que escorava as gigantescas caixas de som que animavam a bagaceira, num volume tão alto que fazia meu moribundo corpo tremer todo. Mesmo assim eu dormi.

Depois de formado fui morar com a Renata, e deve ter sido nessa fase que descobri o valor do silêncio. Ainda gostava de sair, final de semana sempre tinha balada, mas em casa eu tinha que ficar mais quieto porque ela precisava estudar. Nós dividíamos um apê delícia na Vila Madalena, de frente pruma praça também delícia, e toda manhã eu acordava com passarinhos cantando. Gostei daquele bucolismo, assimilei o sossego e encontrei a paz. Comecei a trocar as noitadas por programas mais caseiros – graças à companhia maravilhosa da minha roommate –, e receber pequenos grupos no aconchego do nosso lar de repente me parecia muito mais prazeroso que estar no meio da multidão. Por fim atinei que o alvoroço me desviava do que mais me interessava: as pessoas e suas histórias. Para disfrutar disso, eu, que tenho algum grau de TDA, precisava me concentrar, e qualquer excesso de estímulo me atrapalhava demais.

A raiva do barulho deve ter piorado quando fui morar na Consolação. Minha janela dava pra Augusta, com toda sua agitação e confusão 24×7. Fechava as janelas sempre para poder escutar meu jazzinho, ler ou conversar tranquilo com quem viesse me visitar. Mas o ato de fechar as janelas, simbolicamente, representava um encerramento que em nada combina com meus ideais de liberdade.

E acho que é por isso que amanheci especialmente angustiado hoje (ufa, finalmente chego ao motivo deste post). Nosso apê aqui fica no quarto andar e dá de frente para uma rotatória relativamente movimentada, e, mesmo fechando as janelas – o que, como acabei de explicar, me provoca sensações ruins –, ainda se ouve o pandemônio da rua. O que me desconcentra, desequilibra, me torna ainda mais improdutivo e desfocado. Me atazana o juízo, compromete o humor, enfurece. E eu viro o Walter White de “Breaking Bad”, o William Foster de “Um dia de fúria”, a María Elena de “Vicky, Cristina, Barcelona”. O Taz.

Acho que vou começar a usar tampões de ouvido enquanto não instalamos vidros anti-ruído. Ainda assim, não tem tecla “mute” pro mundo, né? Como lidar com alarmes de carro, bebês chorando em avião (mães, perdoem-me a franqueza), cachorros histéricos, showmícios, aviões, fogos de artifício, a Sofia Vergara? Tá, a Sofia eu amo, gasguita como for, ela pode berrar o quanto quiser.

Mas já vou avisando: se eu não ficar mouco em breve, cuidado comigo. De coroa misófono a velhinho homicida é um pulo. Ou um grito.

Acabou mas tem

Comunicado urgente do condomínio: no dia 04 (vulgo hoje) será feita limpeza na cisterna do prédio e não haverá água a partir das 08 da manhã. Entendido, a gente se programa, tem que fazer manutenção mesmo pela boa saúde da galera, pra não formar aquele lodo nojento nas beiradas da caixa d’água nem juntar Aedes aegypti.

Tratei de me banhar logo, que eu sou muito higiênico, e aproveitei para encher uns baldes (mentira, era um panelão mesmo: o balde quebrou e eu esqueci de comprar outro porque tinha mais o que fazer). Deu 08:30 e saravá, tudo normal, habemus aqua.

Às 09 chega Susana, a faxineira maritaca, e trato logo de avisar:

– Cunhã, avia com a louça que a água vai se acabar! Era pra ter findado mais cedo, então se avexe porque já-já fica sem.

Ao que ela mui suave na nave me responde:

– Tranquilo, joven… somos peruanos, verdad? Si dijeron que se iba a las 8 entonces seguro me alcanza para lavar lo que sea y limpiar toda la casa!

Verdade, Susana, penso. Bora logo dar banho na Luna, encher o açude e aproveitar pra mandar uns carocim d’água pros meus pessoal no Sumpaulo. O deserto é aqui, mas tá faltando é lá…

Conexão Lima – Oz

Depois de anos, muitos anos, uma prima amada me manda uma mensagem dizendo que vem por aqui. Nos reencontramos, nos adicionamos às agendas e, em minutos, nos reintegramos às vidas um do outro. Back home, como se nunca tivesse sido longe. Nunca foi, talvez: apenas esteve. E outros poucos minutos depois, seu irmão, meu também primo, meu também amado, de repente de volta à minha vida e eu de volta à sua. Como se nunca houvesse deixado de. Como se sempre. Porque sólido, porque fogo – porque sempre, afinal. Ela me enviou seu prematuro roteiro de viagem que começa e termina pelo Peru, ansiando por me ver. Ele, orgulhoso, mostrou os cachorros e a casa nova. Eu, que num restaurante esperava a amiga de décadas e seu marido e mais duas novidades, tratava de controlar as lágrimas, pois homem não chora, me ensinou vovó. Mas eu queria mesmo era chorar, queria mais era voltar 20 anos no tempo e cantar aquelas músicas dos Mamonas com meus primos meninos, trepar na jabuticabeira do seu quintal, jogar videogame com eles. Quanto vento soprou desde aquele então. Já não somos crianças, agora temos contas e bebemos vinho e viajamos sozinhos pelo mundo. Viramos a gente grande de quem nos ríamos nos churrascos da família.

Mas preservamos a cumplicidade conquistada, ou melhor, construída. Muito mudou, é verdade, só que debaixo de tantas camadas ainda nos reconhecemos, e nos sabemos, e nos queremos. Me pego vendo suas fotos publicadas em redes sociais e lamento não estar nelas. Reviso as minhas fotos guardadas no computador, e meu coração aperta ao não encontrar registro desse período tão importante e precioso. Sinto saudades do que a gente viveu e do que a gente podia ter vivido. Penso, ansioso e contente, nos lugares que vou mostrar à minha prima, no vinho que vamos tomar, nas risadas que vamos compartilhar. E nas muitas, muitas fotos que vamos tirar.

Seja bem-vinda a Lima, prima. E muito bem-vinda, uma vez mais, à minha vida.

Outros bairros

Tenho um defeito de caráter, admito: costumo circunscrever meu cotidiano à microrregião onde moro, minimamente ampliada em um ou dois bairros, quando tanto. Em Fortaleza, era o Parque Araxá (e a Parquelândia) mais o caminho pro Colégio ou pra faculdade, nem 3km de distância, acrescidos da rota pro Iguatemi, onde eu costumava gazear aula e dar um rolezinho nos finais de semana. Quando cheguei a São Paulo e morei na residência universitária, fazia tudo o que podia dentro do campus: além das aulas e do trabalho, eram filmes no CINUSP, vôlei no Cepê, vernissages (vulgo BOCALIVRE!) no Paço das Artes, farras na Festeca… Mudando pra Vila Madá, aí é que não variava mesmo: vivia no melhor bairro da cidade, fazia tudo a pé e não queria mais nada. Fui pra região da Paulista e, de novo, o mais longe que ia era o escritório: caminhava até a Faria Lima e, no percurso de volta, resolvia a vida pertinho de casa. Aqui em Lima não é diferente: Miraflores é um distrito prático, seguro, bonito. Tem tudo: restaurantes, centros culturais, cinemas, lojas, serviços, conveniência. De vez em quando vou a Barranco para uma noitada ou a San Isidro resolver qualquer coisa, mas quase sempre fico pelo meu bairro mesmo.

Mas hoje foi dia de explorar. Jorge amanheceu criativo e inventou de ir ao Mercado Municipal de Magdalena. Eu havia ido lá uma vez para comprar ingredientes quando preparamos as hallacas no último Natal, mas hoje o plano era descobrir os huariques no mercado e suas delícias escondidas. Chegamos e passeamos pelos apertados corredores aos gritos de comerciantes que competiam freneticamente pelos muitos fregueses. Muita gente se amontoava para comer nos balcões de espaço mínimo, e a fome apertava. Decidimos tentar um restaurante na cercania, e que grata surpresa foi encontrar o Los Esteros de Tumbes: cerveja gelada, atendimento cortês, ceviche fresco e muito bem preparado, seguido de um tacu-tacu de pallares con salsa de lansgotinos que papai-do-céu. A sobremesa foi espalhada: uma crema volteada ali, um três leches de chocolate acolá, enquanto caminhávamos até San Miguel, bairro onde o Jorge cresceu. Nos perdemos por ruas com cara de infância, que me pareciam familiares como aquelas fotos em cores lavadas nos velhos álbuns de fotos na casa da tia cheirando a talco. Ele me mostrou o colégio onde estudava, a casa onde viveu, contou as histórias dos vizinhos, se emocionou e me emocionou junto. Seguiríamos ao Lugar de La Memoria, mas um amigo nos contou que o museu estava fechado, então voltamos à casa para descansar um pouco. No fim do dia, fomos conhecer uma sorveteria nova – e espetacular – que abriu perto de casa, a Amorelado, instantaneamente agregada aos sites favoritos. Buchos devidamente esfriados e preenchidos, rumamos ao Puericultorio Perez Aranibar, onde está rolando um projeto teatral super bacana chamada Kontenedores: 14 micropeças de 15 minutos são apresentadas a audiências reduzidas em 7 contêineres espalhados num jardim, onde há também um bar, comidinhas e um DJ animando o ambiente. Vimos duas esquetes cômicas (“Armadas hasta los dientes” y “Ese dedo”), com textos e atores afiados, e saímos com a sensação de um domingo deliciosamente diferente.

O aprendizado do dia foi que há muita coisa interessante acontecendo por aí, onde a mão curta não chega ou o olhar preguiçoso não alcança. Escapar do umbigo é preciso; viver não é preciso.

ACORDA, ALICE!

Ontem foi feriado em Lima e, como sempre que há uma pausa assim, intervalando a semana, aproveitei para dormir. Dormi pesado, profundo, de roncar alto e sonhar longe. No adiantado do sono, caí numa toca de coelho e vivi uma das experiências mais doidas da minha vida. Não lembro direito, sou péssimo com essa coisa de sonho, mas vou tentar contar.

Recebíamos um convite para visitar as Lomas de Lachay, um oásis que enverdece por 4 meses no ano em meio a um deserto graças a uma conjunção climática que proporciona nevoeiros bem densos de julho a outubro. Com a umidade, as plantas florescem, as árvores secas revivem, e uma peculiar fauna local dá as caras. É um ecossistema ímpar, uma espécie de Shangri-La guardado no Peru.

Pegávamos um ônibus de excursão com mais três amigos, todos animados e curiosos. Um deles tinha levado um bolo de chocolate (creio que li um “eat me” na cobertura), fazendo nossa alegria enquanto a viagem transcorria tranquila, cruzando os areais de Ancón e Huaral, com suas belas e intermináveis dunas. Finalmente saíamos da rodovia, nos metíamos por uma estrada de terra, e, em poucos minutos, a paisagem mudava: uma grama, a princípio bem tímida, se ia encorpando e ganhando altura, e logo havia arbustos, flores, uns esparsos pés de planta aqui e acolá. Baixávamos, seguíamos a guia, nos familiarizávamos com o parque antes de enveredar por suas trilhas. Aí começava a aventura.

Visitamos um mirador, depois outro, nos enchemos de coragem e tomamos umas fotos valentes. Vimos insetos gigantes, colinas verdejantes, olhos d’água perdidos no caminho. Lá pelas tantas, Jorge me oferece uma chocoteja, um doce típico daqui que consiste em um camafeu de chocolate amargo recheado de manjar branco e noz-pecã. Adoro chocotejas, sempre levo aos amigos quando vou ao Brasil. Mas essa era especial: logo na primeira mordida, senti um calor na boca que se estendeu à garganta, descobriu o peito, amornou o coração. Que delícia! Dei outra mordida e tratei de saborear mais, sentir cada diminuto pedaço, como se aqueles minúsculos grãos fossem galáxias inteiras de sabor, microscópicos corpos celestes cheios de particularidades e desafios que eu mal conseguia elaborar enquanto os esmiuçava com a ponta da língua. Não sei por quanto tempo travei essa batalha orgásmica com a tal meia chocoteja, mas depois disso percebi que meus sentidos todos estavam mais aguçados: eu podia escutar cada som da natureza e do homem, desde o bater de lepidópteras asas até o cochicho viperino das chinesas canibais que nos espreitavam; sentia o cheiro fresco das moléculas em suspensão no ar, tragava seu perfume, tentava comê-las; passava os dedos sobre a pele dos meu braços e me arrepiava inteiro com o orvalho brilhante que se acumulava sobre os meus pelos. E as cores, meu Deus, as cores! Era como se meus óculos tivessem lentes LED capazes de decodificar todas as 16 milhões de cores e projetar tudo em não três, mas quatro ou cinco dimensões. Eu tinha meu próprio olho de Thundera e a visão além do alcance: hou-hou-HOOOOOU! Pegava os objetos e tateava seu corpo, adivinhava a porosidade de sua superfície, descobria as diferentes temperaturas de cada matéria. As pontas dos meus dedos tinham infinitas terminações nervosas: eu me sentia uma estrela-do-mar superestimulada. Era tanta informação que me escapavam uns gemidos enquanto caminhava, embevecido com esse universo novo, intenso, deleitoso. La-lalá, what a beautiful combination sending shivers up and down my spine, a música do Erasure ressoava na minha cabeça, acho que até cantava junto, às vezes parava pra dançar uns passinhos, bem discretamente para que os outros não achassem esquisito. Mas devo ter dado bandeira, a moça dos cabelos brancos percebeu! E me olhou, com seus olhos inquisidores. E deve ter comentado com a mãe, que num átimo voltou a cabeça na minha direção, me julgou e condenou ao fogo do inferno. E então eram muitos olhos, uns olhos redondos, estáticos, todos em mim. Eu queria gargalhar, tudo era tão engraçado, mas por todo lado havia corujas famintas vigiando. Me recolhi, controlei, parei de rir – o que custou muito, porque uma das amigas havia caído quando tentava sentar no que parecia ser o trono de Galadriel, disparando as gaitadas –, introjetei e voltei a admirar a natureza. Estava lá, absorto na esmeraldina imensidão das folhas, quando observo uma forma pitoresca. Ele tratava de manter-se imóvel, mas eu já descobrira seu disfarce: um ent de galhos robustos, fugido da Terra Média, daqueles que lutaram ao lado dos elfos e dos hobbits contra as forças de Saruman. Estava lá, eu vi, e não estava sozinho. Estabelecemos um diálogo silencioso, escutei seus planos de proteção deste novo lar. Compartilhei seu íntimo segredo, dei uma piscadela cúmplice e segui minha jornada, sabendo que ele também tinha uma missão a cumprir.

Alcançamos o ponto de encontro, onde os outros humanos nos esperavam. Fui ao banheiro desaguar, mal sabendo que ali teria um contato imediato de sei lá que grau: o retrete, na verdade, era um buraco no chão, que me falou em uma língua morta há milênios e ameaçou cuspir sua lava se eu não saísse correndo. Escapei, alertei os outros que não fossem lá, subi no ônibus e sentei. O relógio teimava em procrastinar, e do lado de fora mais olhos, mais olhos. Dormi (no sonho). O ônibus seguiu até nossa próxima parada, um castelo medieval à beira-mar no povoado de Chancay. Acordei (no sonho), ansioso por ver as ruínas mágicas e, quem sabe, bater um papo com Merlin se ele estivesse de bobeira. Mas nesse momento devo ter alucinado, porque de repente vi uma bilheteria, um velhinho vendendo algodão doce, crianças pulando num jacaré inflável, palhaços montados em pernas de pau, bailarinas exóticas requebrando ao som de reggaeton e, ao fundo, paredes de tijolos falsos no que parecia ser um palácio bem cafona armado com peças Lego. Perambulamos por esse recinto, evitando as filas de zumbis, até que encontramos uma proa de navio de pirata, na qual quis reproduzir a clássica cena de Rose De Witt Bukater e Jack Dawson em Titanic, mas nem Jorge animou nem a multidão interrompeu a fúria das selfies para que eu pudesse lograr meu intento. Subi à mais alta torre do castelo de Lego, olhei o horizonte e me comuniquei com o oceano. Vi o céu, vi o mar, vi além. Lembrei das moléculas cheirosas que não conseguia comer e me fartei mesmo foi com uns alfajores lambuzados de coisa doce. Senti uma molezinha, joguei uma moeda no poço dos desejos (ainda penso que aquele balde era de isopor) e fui me aninhar no ônibus.

Dormi (no sonho) e acordei, por fim, do sonho. Atordoado, destrambelhado, sem conseguir diferenciar realidade e matrix. Mas com um sentimento incrível de regozijo, um elã único, pura joie de vivre.

Pra minha tristeza não tinha do bolo chocolate em casa. Mas tinha chocoteja.

Delícia de feriado. Quero mais.

Como eu, como tu, como tudo

Sempre me impressionou como os peruanos usam muitos ingredientes na sua preciosa gastronomia: quem já viu a elaboração de uma boa leche de tigre sabe do que eu estou falando. Outro dia provei um molhinho (“aderezo”, olha que lindo) que a empregada da Giuliana fez para acompanhar um arroz con pollo, coisa mais besta, parecia, e pedi para ela me ensinar. Qual não foi minha surpresa quando ela elencou tudo o que tinha despelado, picado, curtido, temperado etc. naquela aparentemente simples e prática sarza criolla…
Daí que hoje eu me dei conta que tampouco sou econômico ou objetivo quando vou pra cozinha. O almoço de hoje,por exemplo, vai ser uma riquíssima salada, que todo mundo na casa está de dieta (menos Luna, a esgalamida). A base, claro, é alface, porque aqui não tem tanta opção de folha. Daí, pra incrementar e proporcionar algum prazer gourmet, fui acrescentando: cebola roxa, ají amarillo (um tipo de pimenta), tomate, cenoura ralada, milho, amêndoas torradas, passas, semente de girassol, atum, alcaparras, azeite de oliva, pimenta do reino, sal rosado de Maras e suco de limão. E uns croutons de pão pita praquele croc.
Não deve ter ficado delicioso como os pratos típicos daqui (preparei um olluquito outro dia que ficou SUPIMPA, e a meta agora é criar coragem para fazer carapulcra), mas eu vou tentando, e um dia aprendo.
Gastón Acúrio que se cuide.