Como eu, como tu, como tudo

Sempre me impressionou como os peruanos usam muitos ingredientes na sua preciosa gastronomia: quem já viu a elaboração de uma boa leche de tigre sabe do que eu estou falando. Outro dia provei um molhinho (“aderezo”, olha que lindo) que a empregada da Giuliana fez para acompanhar um arroz con pollo, coisa mais besta, parecia, e pedi para ela me ensinar. Qual não foi minha surpresa quando ela elencou tudo o que tinha despelado, picado, curtido, temperado etc. naquela aparentemente simples e prática sarza criolla…
Daí que hoje eu me dei conta que tampouco sou econômico ou objetivo quando vou pra cozinha. O almoço de hoje,por exemplo, vai ser uma riquíssima salada, que todo mundo na casa está de dieta (menos Luna, a esgalamida). A base, claro, é alface, porque aqui não tem tanta opção de folha. Daí, pra incrementar e proporcionar algum prazer gourmet, fui acrescentando: cebola roxa, ají amarillo (um tipo de pimenta), tomate, cenoura ralada, milho, amêndoas torradas, passas, semente de girassol, atum, alcaparras, azeite de oliva, pimenta do reino, sal rosado de Maras e suco de limão. E uns croutons de pão pita praquele croc.
Não deve ter ficado delicioso como os pratos típicos daqui (preparei um olluquito outro dia que ficou SUPIMPA, e a meta agora é criar coragem para fazer carapulcra), mas eu vou tentando, e um dia aprendo.
Gastón Acúrio que se cuide.

Paris, dia 6: Gramu eu tenho, só me falta é o dinheiro!

Sabadão de sol: depois de muita perna batida, a gente queria um dia pra flanar e curtir. Nos arrumamos um pouquinho melhor para dar folga aos pisantes turísticos e recuperarmos um pouco da dignidade perdida em meio a tanta luta, porque afinal nós somos uns turistas bem guerreiros. Nosso destino foi o Marais, com suas ruas cheias de lojinhas fashion, gente descolada, bares e restaurantes animados. Almoçamos no Le Potager du Marais, um vegetariano charmoso com umas receitas deliciosas, onde fomos recepcionados por Jesus, o dono magrelo que fez um festa quando viu que eu tinha achado uma joaninha na mochila de Camis: “La coccinelle, la coccinele! You are very lucky!”, dizia ele batendo palma, numa alegria que só quem não come carne exibe. Seguimos pela rue Rambuteau e chegamos à Pain de Sucré para a sobremesa, e aquilo é um dos lugares que eu quero visitar sempre que estiver em Paris, porque haja tentação! Um doce mais lindo que o outro, e a tortinha de limão e o bolinho de framboesa em forma de coração que eu comi estavam sensacionais!
Aí passamos numa loja da Muji, Camilinha quase surtou, depois passamos na Fragonard e ela surtou de vez, e eu comecei a sentir uma coisa, um fenômeno sobrenatural, uma comichão louca no bolso… Escolhi uma eau de toilette para o dia-a-dia, só uma bobagenzinha, mas o kraken foi libertado de suas amarras: depois de mais algumas lojinhas cheias de must-haves, avistei a L’Artisan Parfumeur, que tinha uma vendedora morta de simpática, que adorava o Brasil e me mostrou um perfume maravilhoso, diferente, exclusivo, whiskas sachet, que fez meu cartão de crédito enegrecer em segundos, e de repente lá estava eu com uma sacolinha toda estilosa na mão e rico, rico, rico na minha cabeça. Aí vieram as camisas, a mala nova, os doces na Maison Georges Larnicol (voltei atrás de mais koignettes)… Ah, no meio dessa farra teve uma pausa na Place des Voges para mais um pique-nique ao sol e o Chico Buarque esnobando os gritos apaixonados da Camilinha, e no fim da tarde paramos para uns bons drinks num barzinho na rue Vieille du Temple, que bombava àquela hora. Como a noite custa a cair, a gente perde a noção do tempo, e mal percebemos que nossos estômagos já clamavam por janta. Pesquisamos nosso inseparável Lonely Planet (um guia muito completo, super recomendo) e escolhemos o Khatag, um restaurante tibetano na Quincampoix, pertinho do Georges Pompidou. Como não sabíamos direito o que havíamos pedido, trocamos as entradas, temperamos tudo ao nosso jeito e até agora não sei se o meu acompanhamento era pra comer ou pra passar na testa, mas foi tudo joia, principalmente pelo atendimento muito gentil e pelo preço justíssimo (15 orrôs por bebida, entrada e prato).

Thèn Thoug, especialidade tibetana do Khatag

Thèn Thoug, especialidade tibetana do Khatag

Voltamos ao hotel, ainda pensando em sair pra balada, mas, depois de meia hora estirados nas camas com os pés pra cima, nos demos conta de que não tínhamos condição – Camis, na verdade, até que ainda tava pilhada, mas eu mesmo pifei. Antes de capotar, checamos no mapa e nos assustamos com o quanto já cobrimos de Paris! E assim acabou mais um dia na apaixonante cidade-luz.

(texto de 02/06/2012)

O cookie é uma delícia!

Último dia de 2002, hora de fazer a retrospectiva.
Esse ano não foi fácil. Várias previsões não se concretizaram. Alguns sonhos, pra variar, tiveram de ser adiados. Verdades duras chegaram como tapas, fazendo a gente baixar a cabeça e chorar. Mas teve muito de bom também. Falando por mim, o melhor de 2002 foi ter aprendido muito. Aprendi sobre quem eu sou, sobre as pessoas que amo, sobre a importância das coisas. Se não tive grandes eventos para lembrar, agradeço a Deus por ter encontrado felicidade no que parece pouco, pequeno, “simples”.
Sabe uma das coisas que mais me deixaram feliz em 2002? Foram os cookies que a Renata fez. Para quem não sabe, eu e a Rê moramos juntos desde abril de 2001,
dividindo um apartamento, duas ou três cervejas, meia dúzia de dúvidas e infinitos sonhos e desejos. Ela faz cookies famosos – sabe do que falo quem já teve o
inenarrável prazer de experimentá-los! E eu, metido e já pedindo desculpas por revelar tal segredo, divido aqui um presente com gente que eu quero ver sorrindo em 2003.
Talvez a gente não descubra a cura de muitos males, talvez a gente não acerte na Sena nem encontre os grandes amores das nossas vidas. Talvez falte o trabalho perfeito, talvez a distância atrapalhe, talvez a gente não acompanhe o atropelo do tempo.
Mas talvez isso tudo seja a chance de aprendermos, de encontrarmos novas perspectivas, de crescermos. Talvez sim, pra tudo, né?
Não tenho receita de felicidade, nem tenho essa pretensão. Só tenho uma receita de cookies doces, quentes e deliciosos, com chocolate derretendo pela
boca, pra liberar rios de serotonina no sangue quando a música da vida estiver meio chata.
A quem eu não encontrar em breve, mando beijos, abraços, amassos, um tanto da melhor energia que eu tenho!
Carpe Diem, mais do que sempre!

(texto de 31/12/2002)