Quando o sujo bater na janela do meu quarto…

Em Lima não chove: moro há dois anos aqui e, nesse período, só duas vezes vi garoar um pouco mais forte – chuvinha, chuvisco, daquelas que molham um pouquinho sem encharcar. Aguaceiro mesmo, tipo tempestade tropical, nunca. Trovão de meter medo, relâmpago cortando o céu, granizo como cai no Brasil, nem pensar.

Daí que, como São Pedro não chora por essas bandas, a cidade não toma banho. Se asseia, no máximo, com o incansável trabalho das equipes de limpeza urbana, mas não tem jeito – Lima está sempre encardida. A frota de veículos velhos emite gases e resíduos que, aliados às condições climáticas e de relevo locais, criam uma estufa de fuligem em suspensão, tanto que a capital peruana já foi considerada a mais poluída da América Latina. Some-se a isso a umidade absurda em Miraflores, que no inverno chega à incrível taxa de 99%, e temos “la mugre”, essa imundície preguenta que cobre tudo e todos o tempo inteiro. Um pesadelo para um virginiano com TOC.

Em casa temos uma abençoada e preciosa faxineira que diariamente varre, espana, aspira, lava, com razoável capricho, e ainda assim, se ao fim da tarde passo o dedo nos móveis, ele sai preto. Imaginem, então, como ficam as janelas, fechadas durante a maior parte do dia justamente para bloquear a entrada da sujeira, que nelas se deposita simbioticamente. A cada duas semanas preciso remover todas os vidros das esquadrias para que sejam devidamente higienizadas e a gente possa voltar a ver o que acontece no mundo lá fora. E É UM INFEEEEEEEEEERNO, porque as porcarias das lâminas até que saem com certa facilidade, mas na hora de botar de volta, não sei, parece que elas crescem, engordam, ou simplesmente teimam de não querer voltar das férias e resolvem NÃO ENTRAR NUNCA MAAAAAAAAAAAAIS, ESSAS BOOOOOSTASSSSS! Como se não bastasse a dor nas costas pelo peso e o medo de derrubar tudo nos carros da garagem ou, pior, nas pessoas passando lá embaixo, ainda tenho que administrar o estresse de não conseguir meter os vidros nos seus respectivos lugares.

Agora tô aqui suado feito dançarino de lambada, exausto, com uma janela meio encaixada e emperrada, não sai do canto de jeito nenhum. E o pior: metade aberta, para deixar a poluição toda entrar. AAAAAARGH!

Bitch!

Aos 3 meses de idade, reparamos que Luna sentia uma dor: não caxingava, mas sempre reclamava quando agarrávamos sua pata traseira direita, que era menos forte que a esquerda. Tinha coisa errada ali. Levei ela à clínica, onde foi examinada e diagnosticada com uma inflamação, possivelmente decorrente de uma queda. Mandaram dar um remédio e disseram para voltar em uma semana. Passados uns dias, de fato ela parecia melhor: ganhou massa muscular, já não gania, parecia estar tudo bem. Mas eu continuava cabreiro, então pedi que lhe tomassem uma radiografia. Para a surpresa de todos – e nosso desespero -, Luna tinha uma fratura na cabeça do fêmur. Segundo a veterinária, a calcificação ali era muito pouco provável porque essa região é porosa, e também por isso não aguentaria um pino. A solução seria cortar o osso e esperar que se formasse um tecido esponjoso. A cirurgia era relativamente delicada, e a convalescência, sim, um pesadelo: a cachorra, espoleta toda, teria que ficar em repouso sem se mover muito por duas semanas. Para se ter uma ideia da improbabilidade disso acontecer: saio com a Luna todo dia, de manhã e à noite, e ela NUNCA se cansa. É uma energia sem fim: corre mas que bala, pula feito coelho, interage com todo humano, canino, arbóreo ou mineral que encontra no caminho. Mantê-la quieta por 14 dias seria impossível sem sedação, e o risco de machucar a pata e comprometer a recuperação era grande. De qualquer forma, teríamos que esperar alguns meses mais porque Luna era muito pequena ainda para a anestesia.

Dois meses e meio depois, com a pequena já prestes a virar mocinha, chegou a hora de esterilizá-la. Decidimos aproveitar o embalo – e a anestesia e o período de molho – para fazer logo tudo de uma vez: tirar os ovários, o útero e ajeitar também a patinha. Nos exames prévios, nova radiografia e nova surpresa: o osso calcificou sozinho, perfeito, de um jeito que a veterinária disse nunca ter visto e jamais esperaria! Minha filha é praticamente o Wolverine quadrúpede! Não precisa mais operar o fêmur, eba, eba!

Daí que hoje foi só a ovariohisterectomia mesmo. Pela primeira noite nos últimos 4 meses ela dorme fora de casa, tadinha. A essa hora deve estar lá, chorando no meio de muitos outros cachorros, sofrendo dores horríveis, com um cone aterrorizante na cabeça, sentindo-se abandonada e sozinha no mundo. Meu coração em frangalhos, não sei se consigo dormir…

Se bem que a bicha é mutante, se autorregenera. Se duvidar, já deve ter escapado da clínica, recauchutado os miúdos, entrado no cio imediatamente e agora está tocando o terror com toda a cachorrada na rua.

Ou seja: a gente aqui, morto de preocupado com a saúde dela, a conta bancária arrombada (à toa) para que tivesse o melhor tratamento possível, e a safada por aí saciando sua luxúria.

Bitch.

Macbook, macdog, mé que pode?

Luna morre de ciúme do meu computador. É eu abrir o bicho e ela começa a saltar feito louca, azunhar minhas pernas, morder e arrancar o cabo de força, latir – e olha que ela não late quase nunca, às vezes até parece muda… Daí sobe no sofá e deita no meu colo com a cabeça sobre o teclado, empurrando o notebook e me olhando com aquela cara pidona do Gato de Botas do Shrek.

No começo eu cedia ao seu charme de bebê canino, mas agora entendo que minha filha se converteu em uma manipuladora ardilosa, que de todas as maneiras tenta chamar minha atenção para não apenas ganhar um afago, ou que eu lance um brinquedo à distância e ela possa desembestar a mil pela casa em sua busca. Isso não lhe basta: Luna quer mesmo é minha devoção. Quer que eu esteja sempre a seu serviço, disponível a qualquer hora. Que atenda ao mínimo grunhido, que corra 50 km ao seu lado, que não me importe com a fixação oral que lhe faz morder tudo e todos freneticamente, que a carregue no colo e lhe abrace e aperte e lhe mate de amor.

Ok, confesso que essa última parte é legal. Sou meio Felícia (Elmyra, Elvira) mesmo, e adooooooro apapachar – em espanhol significa algo como dar carinho, dengar – a chiquita. Mas pô, também sou doente pelos meus gadgets, né? Como faço para a cachorra e o laptop coabitarem em paz?

Luna 1 x 0 computador

Luna 1 x 0 computador